Tubarões 

Sharktember ©Discovery Channel 

O mês de Setembro é o mês dos tubarões. E não é só na televisão por cabo. 

Na Câmara Municipal do Funchal, por exemplo, a espécie do mês é o tubarão azul, ou tintureira para aqueles que o reconhecem no supermercado. Apesar de ser bastante comum em Portugal – e se não fosse,  as notícias recentes de dois ataques a pescadores nas águas nacionais tornavam-no mais familiar -, a tintureira é apenas uma dos mais de 30 espécies que habitam a costa de Portugal Continental e Ilhas. 

No seu mês, aqui ficam alguns dados para aqueles que, como eu, vêem nestes animais mais que uns frios assassinos ou um prato delicioso.  

Tubarão-frade

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Tubarão-frade

Cetorhinus maximus Gunnerus, 1765 (do grego: κῆτος (ketos), “monstro marinho” ou “baleia” + ῥινός (rhinos), “nariz”; e do latim: maximus, “máximo”), conhecido pelos nomes comuns de tubarão-elefantetubarão-frade ou tubarão-peregrino, é uma espécie de tubarões lamniformes, única representante do género Cetorhinus da família monotípica Cetorhinidae. Com até 10 m de comprimento e adaptações anatómicas à alimentação por filtração, este tubarão planctívoro é o segundo maior peixe conhecido, apenas menor do que o tubarão-baleia (Rhincodon typus). A espécie tem distribuição natural cosmopolita, embora migrando sazonalmente em função das disponibilidade de plâncton, sendo encontrado nas águas temperadas de todos os oceanos. C.maximusé um tubarão pelágico, mais comum nas águas costeiras ricas em plâncton, com um distribuição centrada nas águas temperadas de ambos os hemisférios, embora esteja sazonalmente presente em águas das plataformas continentais desde as regiões boreais até às regiões subtropicais de águas temperadas. A espécie prefere águas com temperaturas entre 8 °C e 14,5 °C, mas estudos recentes confirma que a espécie cruza a região equatorial atravessando águas bem mais quentes.

A espécie é considerada migratória, deslocando-se em latitude em função das concentrações sazonais de organismos planctónicos, acreditando-se que inverne nas águas oceânicas profundas das regiões subtropicais. Foi assinalado nas águas costeiras das regiões temperadas de todo o mundo, em geral perto da superfície. No Verão, são comuns os avistamentos nos mares do norte da Europa e de Inverno nos águas atlânticas mais a sul (costas atlânticas ibérica e norte-africana).

A espécie é frequentemente encontrada junto à costa, por vezes em baías e outras águas abrigadas e ricas em plâncton. Nos seus lentos movimentos alimentares a espécie segue as máximas concentração de plâncton ao longo da coluna de água, sendo frequentemente visível à superfície, mas já foi observado um espécime a 910 m de profundidade.

Estudos realizados em 2003 provaram que a espécie não hiberna, mantendo-se activa durante todo o ano, migrando para latitudes onde o plâncton seja mais abundante ou explorando águas mais profundas, tendo sido demonstrado que os espécimes que permanecem nas altas latitudes se movem durante o inverno para profundidades em torno dos 900 m para se alimentar do zooplâncton presente àquelas profundidades.

O seguimento de espécimes recorrendo à radiolocalização por satélite confirmou que muitos tubarões da espécie C. maximus migram milhares de quilómetros durante os meses de inverno na busca de blooms de plâncton. Esses estudos também mostraram que a espécie renova as cerdas dos filtros branquiais de forma contínua.

Em 2009 foram instalados marcadores em 25 tubarões capturados ao largo de Cape Cod, Massachusetts, o que permitiu determinar que alguns indivíduos migram para sul durante o inverno. Permanecendo a profundidades entre 200 m e 1000 m durante muitas semanas, os tubarões marcados cruzaram o equador e atingiram as costas do Brasil. Um dos espécimes marcados permaneceu um mês junto á foz do Rio Amazonas. Embora se desconheçam as razões que determinam estas migrações, o especialista Gregory Skomal, da Massachusetts Division of Marine Fisheries, suspeita que elas estarão relacionadas com a reprodução.

C.maximusé uma espécie de natação lenta, movendo-se com uma velocidade de cerca de 2 nós (3,7 km/h) enquanto se alimentam. Ao contrário da maioria dos tubarões não se afastam de embarcações nem fogem perante a sua aproximação. A espécie não é atraída pelo lançamento de engodos de qualquer natureza.

Apesar da espécie ser grande e lenta, já foi observada a saltar colocando o corpo inteiramente acima da superfície da água (comportamento similar ao breaching dos cetáceos). Este comportamento poderá ser uma forma de desalojar parasitas comensais, mas essa interpretação é contudo especulativa e difícil de verificar já que este comportamento entre os cetáceos e os grandes peixes pode também ser devido a competição intra-específica com recurso a comportamento deimático com exibição de tamanho e força.

Descrição

Os espécimes adultos de C. maximus atingem frequentemente os 10 m de comprimento. O maior espécime medido com precisão foi capturado em 1851 numa rede de pesca de arenque na Baía de Fundy, Canadá. O seu comprimento total era de 12,3 m (40,3 pés) e pesava cerca de 19 toneladas.  Relatos mencionam que nos mares da Noruega foram capturados três tubarões-frade com mais de 12 m de comprimento, o maior deles com 13,7  m, contudo esta informação é considerada duvidosa porque desde então nunca foi capturada naquela região qualquer exemplar cujas dimensões de aproximassem dos valores reportados. Em média, os espécimes adultos atingem um comprimento de 6-8 metros e pesam cerca de 5,2 toneladas. Alguns espécimes podem atingir 9-10 metros de comprimento, mas após muitos anos de pesca comercial em grande escala, os exemplares desse tamanho tornaram-se raros.

O corpo é fusiforme, com um focinho protuberante, de forma cónica, o que associado ao tamanho lhe mereceu o nome comum de tubarão-elefante).

A coloração corporal é geralmente acinzentada, com laivos de acastanhado, o que lhe dá um aspecto de pele manchada. A barbatana caudal, em forma crescente, apresenta uma forte quilha lateral.

Sendo um filtrador planctívoro, de movimentos lentos, exibe conspícuas adaptações anatómicas à filtração, incluindo uma boca alargada em extremo e filtros branquiais muito desenvolvidos, constituído por espessas branquicténias escuras constituídas por estruturas em forma de cerda. As fendas branquiais estendem-se em torno da parte inferior e lateral da cabeça, quase circundando o animal.

A ingestão da água é do tipo passivo, resultando exclusivamente do movimento do animal, que assim se vê obrigado a nadar com a enorme boca aberta. Estima-se que um espécime adulto filtre até 1800 toneladas de água por hora, capturando o plâncton (incluindo ovos e larvas de diversos organismos) e pequenos peixes e outros organismos pelágicos por filtração da água que flui através da boca para as brânquias.

Alimentam-se frequentemente perto da superfície da água, nadando com a boca aberta e os rastros branquiais erectos. Ao contrário de outras espécies de tubarões planctívoros, como Megachasma pelagios e o tubarão-baleia, o tubarão-frade não parece procurar activamente o alimento, embora possua grandes bolbos olfactivos que o podem orientar. Sendo um filtrador passivo, depende em exclusivo da água que é forçada a atravessar as suas brânquias em resultado do avanço do animal por natação, pois não tem mecanismos que lhe permitam chupar ou bombear água através das brânquias.

Os dentes são muito pequenos e numerosos, muitas vezes excedendo a centena por linha. Os dentes curvadas para trás, com a mesma morfologia e dimensão nos maxilares superior e inferior. Cada dente apresenta uma única cúspide cónica.

Apesar de serem considerados animais sociais, capazes de formar cardumes segregados por sexo, a espécie ocorre tanto em pequenos cardumes como em espécimes isolados. geralmente o número de indivíduos por cardume é de apenas 3-4, mas já foram reportados grupos de até 100 espécimes.  O seu comportamento social parece seguir estímulos visuais, já que apesar de ter olhos pequenos, estes são bem desenvolvidos e funcionais. Têm sido assinalados espécimes a observar embarcações, aparentemente confundindo-as com indivíduos da sua espécie.

Na Baía de Fundy são frequentes pequenos cardumes nadando em círculos junto à superfície, com os indivíduos a seguirem em fila, o que pode ser uma forma de comportamento de acasalamento. Apesar de seu grande tamanho e aparência ameaçadora, os tubarões-frade não são agressivos e são inofensivos para as pessoas, sendo frequentemente avistados quando pescadores lançam bóias à agua, vindo à superfície para investigar e parecendo acomodar-se à presença humana.

A espécie exibe o plano corporal típico dos tubarões lamniformes, razão pela qual são por vezes confundidos com os grandes tubarões brancos da espécie Carcharodon carcharias. Contudo, as duas espécies podem ser facilmente distinguidas, já que a mandíbula do tubarão-frade é cavernosa, com até 1 metro de largura, com o focinho mais longo e longas fendas branquiais que quase circundam a cabeça. O muito desenvolvido filtro branquial é também bem visível, os olhos são menores e o animal apresenta uma menor circunferência média. Outra diferença conspícua ocorre na dentição, com C. carcharias a apresentar grandes dentes, em forma de adaga, enquanto os dentes de C. maximus são muito menores, não excedendo os 5-6 milímetros, e em forma de gancho, com dentes funcionais apenas nas primeiras três ou quatro linhas da mandíbula superior e seis ou sete linhas da mandíbula inferior. A sua etologia é também completamente diferente, já que o primeiro é um predador activo de animais de grande porte e segundo um organismo filtrador.

Outras características distintivas incluem um forte pedúnculo caudal em forma de quilha, a pele altamente texturizada e recoberta por escamas placóides e uma camada de muco, um focinho-pontiagudo, distintamente encurvado em espécimes jovens, e uma barbatana caudal em forma de meia-lua. Nos indivíduos de grande porte, a barbatana dorsal pode pender para um dos lados quando exposta acima da superfície da água. A coloração é muito variável (provavelmente, dependente das condições de observação e condição do indivíduo), mas geralmente é castanho escura ao preta-azulada na parte dorsal variando gradualmente para uma tonalidade esbranquiçada ou cinzento-clara na parte ventral.

Os tubarões da espécie C. maximus apresentam muitas vezes cicatrizes e outras marcas cutâneas bem visíveis, possivelmente resultado de encontros com lampreias ou das mordeduras de esqualos, nomeadamente de Isistius brasiliensis. Apesar disso, estes grandes tubarões têm poucos predadores conhecidos, muito embora já se tenham observado tubarões-brancos a alimentarem-se de restos de tubarões-frade e de se terem observado orcas a devorar tubarões-frade ao largo da Califórnia e da Nova Zelândia. As lampreias aparecem frequentemente agarradas à sua pele, mas nos exemplares adultos é pouco provável que consigam perfurar a pele grossa do tubarão, sendo as marcas cutâneas provavelmente o resultado de ataques na fase juvenil.

O fígado de C. maximus, que pode representar 25% do seu peso corporal, corre todo o comprimento da cavidade abdominal. Pensa-se que desempenha um papel na regulação de flutuação para além de armazenamento de energia a longo prazo.

Maturidade sexual e reprodução

C. maximusatinge a maturidade sexual entre os 6 e os 13 anos de idade, com um comprimento corporal de 4,6 a 6 m.

Acasalam no Verão nas águas costeiras da região temperada (que no caso das populações do Atlântico Norte corresponde às costas dos mares do norte da Europa e do Canadá).

São ovovivíparos, com um período de gestação que se estima dure de 2 a 4 anos, produzindo 1 a 2 crias por gestação, com 1,5 m a 2,0 m de comprimento à nascença. Existem grandes incertezas quanto ao período de gestação e ao número de crias, já que são muito raros os registos de captura de fêmeas grávidas. Uma fêmea capturada carregava 6 embriões. As fêmeas buscam águas pouco profundas para o nascimento das suas crias, o qual ocorre na fase final do Verão.

Os embriões em desenvolvimento alimentam-se inicialmente do conteúdo de um saco vitelino bem desenvolvido, embora sem conexão placentária. Na fase final de desenvolvimento recorrem à oofagia, alimentando-se dos óvulos maternos não fertilizados. O recurso à oofagia explicará a razão da existência dentes aparentemente inúteis na fase final de desenvolvimento do embrião, os quais parecem desempenhar um papel importante antes do nascimento, permitindo que o embrião se alimente com os óvulos maternos não fertilizados. Nas fêmeas, apenas o ovário direito das fêmeas parece ser funcional.

A longevidade média da espécie é desconhecida, mas os especialistas estimam que seja de cerca de 50 anos.

Taxonomia

O tamanho da espécie, a espectacularidade da sua anatomia, especialmente no que respeita à enorme boca distendida, e a sua presença junto à superfície das águas levou a que a espécie recebesse uma considerável notoriedade, traduzidas nos seus numerosos nomes comuns. Em português o nome comum mais frequente parece ser tubarão-elefante, resultado da sua corpulência e do focinho prolongado, mas são frequentes múltiplas outras designações, entre as quais tubarão-frade e tubarão-peregrino, aparentemente uma alusão à coloração e à pomposa lentidão com que se movimenta junto à superfície das águas. A designação “basking shark” comum em inglês também parece aludir à lentidão com que se move ao alimentar-se junto à superfície, parecendo estar a aquecer-se ao sol (“basking”).

A espécie é o único membro da família monotípica Cetorhinidae, o que faz de Cetorhinus um género mono-específico da ordem Lamniformes.

 A espécie Cetorhinus maximus foi inicialmente descrita pelo naturalista escandinavo Johan Ernst Gunnerus, a partir de um espécime capturado nas costas da Noruega. O nome genérico Cetorhinus é derivado do grego ketos, que significa “monstro marinho” ou “baleia”, e de rhinos, “nariz”. O epíteto específico maximus é o latim para “máximo”, uma constatação das grandes dimensões da espécie.

Ao longo dos anos, em parte em resultado da grande amplitude da área de distribuição natural e da variabilidade morfológica da espécie, foram-lhe sendo atribuídos diversos nomes, resultando numa complexa sinonimia taxonómica que inclui nomes como Squalus isodus, atribuído em 1819 por Michelangelo Macrì, Squalus elephas, por Charles Alexandre Lesueur em 1822, Squalus rashleighanus, por John Nathaniel Couch em 1838, Squalus cetaceus, por Laurence Theodor Gronow em 1854, Cetorhinus blainvillei, por Brito Capello em 1869, Selachus pennantii, por T. Cornish em 1885, Cetorhinus maximus infanuncula, por Deinse & Adriani em 1953, e, finalmente, Cetorhinus maximus normani, por Siccardi em 1961.

A espécie é conhecida do registo fóssil desde o início do Eoceno.

Capturas e utilização

Anteriormente abundante, o tubarão-frade tem sido um alvo fácil da pesca por causa de sua baixa velocidade de natação e pela sua natureza pouco agressiva.

A espécie tem sido objecto de uma pescaria comercialmente importante, sendo as capturas utilizadas como fonte de alimento humano, produção de barbatanas de tubarão, produção de couro a partir da sua pele, produção de ração animal e como fonte de óleo de fígado de tubarão. O seu grande fígado produz grandes quantidade de óleos ricos em esqualeno.

A sobrexploração da espécie tem reduzido as suas populações ao ponto de algumas terem desaparecido e de outras precisarem de protecção. Apesar disso, a espécie é ainda alvo de captura pelas frotas pesqueiras do Japão, Coreia do Sul e de outros países devido ao óleo produzido a partir do seu fígado e ao valor das suas barbatanas (usadas na confecção de sopa de barbatana de tubarão). Outras partes da carcaça, como as cartilagens, são utilizadas em medicina tradicional chinesa e como afrodisíaco no Japão, o que aumenta a sua procura.

Em resultado do rápido declínio as suas populações, C. maximus foi incluído entre as espécies protegidas em diversas regiões oceânicas e o comércio de produtos derivados da sua captura foi restrito no contexto da CITES. A captura da espécie está interdita nos Açores, Reino Unido, Malta, Nova Zelândia, Flórida e águas norte-americanas do Golfo do México, e, desde 2008, está sujeita a restrições de captura e descarga nas águas da União Europeia. Desde Março de 2010 que está incluída no Anexo I da the CMS Migratory Sharks Memorandum of Understanding.

Em tempos considerados uma praga ao longo da costa canadiana do Pacífico, os tubarões-frade foram alvo de um programa de erradicação promovido pelo governo entre 1945 e 1970. A partir de 2008, estão em curso esforços para determinar se os tubarões ainda vivem na área e monitorizar sua potencial recuperação.

É tolerante à aproximação de embarcações e mergulhadores, podendo mesmo aproximar-se e circundar os mergulhadores, o que torna a espécie um importante atractivo para o turismo de mergulho nas áreas onde a sua ocorrência seja comum.

Criptozoologia

Em várias ocasiões, carcaças de C. maximus em decomposição foram identificados como restos de serpentes do mar ou de plesiossauros, gerando grande interesse no campo da criptozoologia.

Entre esses casos contam-se os casos que ficaram conhecidos como o Monstro de Stronsay e o Zuiyo Maru.

 

Tubarão azul © Câmara Municipal do Funchal

Tubarão azul © Câmara Municipal do Funchal

 

O tubarão azul é, provavelmente, uma das espécies de tubarão mais comuns nas águas portuguesas. Mas quem é, afinal, este peixe?

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Tubarão Azul ©Imagem do banco de imagens de CMBio – Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul (Brasil)

 

 

O próximo da lista será também um dos avistados na nossa costa: o tubarão frade, o segundo maior do mundo.

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A costa portuguesa tem mais de trinta espécies diferentes de tubarões, entre elas o famoso tubarão-branco que costuma passear-se nas águas do mediterrâneo junto ao Algarve. 
Segundo João Correia, Biólogo Marinho, e especialista em tubarões, em declarações ao blog anamar59.blogspot.pt prova disso mesmo são os números da FAO – Organização para a Agricultura e Alimentação, das Nações Unidas – que coloca Portugal entre os países que mais tubarões e raias captura por ano: mais de 15 toneladas.

“A costa portuguesa está cheia de tubarões. Apesar da abundância de espécies, o número de exemplares tem vindo a diminuir, muito por culpa da pesca excessiva”, explica o biólogo marinho João Pedro Correia, especialista em tubarões, autor da investigação ‘Pesca Comercial de Tubarões e Raias em Portugal’.

No topo das espécies mais frequentes na costa portuguesa encontram-se o tubarão-azul, o tubarão-anequim e o gigante tubarão-frade. “Aparecem toneladas de tubarões-azuis nas nossas docas, capturados por engano pelas redes dos pescadores”, afirma o biólogo, também conselheiro do Oceanário de Lisboa, sublinhando que “é cada vez mais frequente serem encontradas espécies, tipicamente características das zonas tropicais, em latitudes acima da de Portugal”.

Segundo o especialista, esta situação acontece devido ao aquecimento global e ao aumento da temperatura média do mar. “Não é um problema que afecte somente os tubarões. As pessoas ainda não se mentalizaram de que o aquecimento global existe mesmo e que já se faz notar há muitos anos. Há uns tempos foram encontrados espadartes em Inglaterra, uma coisa impensável”, esclareceu.

In http://surftotal.com/noticias/exclusivos/item/5972-diversos-tubaroes-avistados-na-zona-de-ilhavo-aveiro

Um mergulho com os tubarões nos mares dos Açores

– por Alexandre Aires da Silva –

Deslocando-se ao sabor da Corrente do Golfo proveniente da costa atlântica dos EUA, uma tintureira acaba de entrar nas águas azuis e cristalinas do arquipélago dos Açores. Como que chegando a um oásis após uma longa e desgastante viagem no deserto, é notória a maior abundância de alimento por estas paragens. Paredes verticais de atuns, anchovas e cavalas entre outra “comedoria” quebram a continuidade do que mais parece ser um gigantesco aquário sem paredes à vista. Suportando toda esta vida, e como que explodindo desde os 500 até cerca de 30 metros de profundidade, temos os fundos marinhos do Banco Princesa Alice, localizado a Sudoeste da Ilha do Faial.

A tintureira, de corpo alongado, apresenta uma coloração azul-vivo que praticamente a confunde com o próprio mar dos Açores, não fossem o seu ventre esbranquiçado e os seus olhos grandes e curiosos. À boleia no seu corpo viajam ainda 3 peixes-piloto que, oportunisticamente, se vão alimentando das pequenas partículas que sobram das suas refeições. Trata-se de uma fêmea adulta com 2,40 m de comprimento. Encontra-se grávida e no final de um período de gestação que durou cerca de 9 meses. Dentro dos seus dois úteros desenvolvem-se 80 embriões que mais parecem ser réplicas em miniatura da sua mãe. É possivelmente nos mares açoreanos, ou ainda noutras águas europeias ou do Norte de África, que este tubarão vai dar à luz. Durante os primeiros 2-3 anos de vida, os em breve recém-nascidos irão encontrar uma maior disponibilidade de alimento nestas chamadas áreas de maternidade e crescimento. A sua probabilidade de sobrevivência é reforçada pelo facto de não abundarem adultos nestas paragens, diminuindo, deste modo, a competição pelo alimento.

Este cenário hipotético traduz um pouco do que temos vindo a aprender sobre a complexa estratégia de reprodução da tintureira que também é conhecida como tubarão-azul. No Atlântico Norte, julga-se existir uma grande população que se encontra segregada por sexos e fases-de-vida. Este grande migrador transatlântico utiliza os diferentes sistemas de correntes para se deslocar nesta vasta área oceânica.

Talvez por ainda termos muito a aprender sobre a biologia e comportamento dos tubarões, nenhum outro grupo de organismos aquáticos tem vindo a receber tanta incompreensão da nossa parte como estes animais. Indiscutivelmente, com responsabilidade nesta onda de mistério, surge-nos também a terrível imagem do grande tubarão-branco comedor-de-homens que nos ficará para sempre na memória do clássico filme “O Tubarão” de Steven Spielberg. A pura verdade é que das cerca de 400 espécies de tubarões hoje conhecidas, apenas 12 são consideradas potencialmente perigosas para o homem. Anualmente, e em termos médios, verificam-se cerca de 15 ataques fatais de tubarões a nível mundial. Curiosamente, este número revela-se bastante inferior às mortes causadas por outros animais tais como medusas, cobras, crocodilos, ou até mesmo abelhas. Parece portanto existir, entre o senso comum, uma imagem deturpada dos tubarões.

Os tubarões, conjuntamente com as raias e as quimeras (espécies de profundidade), pertencem ao grupo dos peixes cartilagíneos. Tal como o próprio nome indica, e em contraste com o grande grupo dos peixes ósseos (que inclui a maioria das espécies que habitualmente consumimos), os peixes cartilagíneos têm o seu esqueleto constituído por cartilagem. Podemos facilmente identificar os tubarões pelas suas 5-7 aberturas branquiais, dispostas verticalmente em ambos os lados da cabeça, e pela sua pele revestida de dentículos (semelhantes a pequenos dentes).

Até hoje, registaram-se 31 espécies de tubarões nos mares dos Açores (ver caixa). A diversidade entre estas espécies é extrema, variando desde o pequeno tubarão-anão até ao majestoso pintado. De um modo geral, podemos dividir os tubarões dos Açores em dois grandes grupos: espécies pelágicas e de profundidade. O primeiro grupo inclui as espécies de hábitos associados à coluna de água, isto é, ao ambiente pelágico. No grupo dos tubarões de profundidade incluímos as espécies que vivem sobre os fundos marinhos das grandes profundidades.

Entre os tubarões pelágicos dos Açores merece um particular destaque a nossa já conhecida tintureira (Prionace glauca). Para além de se tratar da espécie mais abundante nas águas do arquipélago, está também sujeita a uma forte pesca na região dado que é capturada em grandes quantidades na pescaria dirigida ao espadarte. Ocorrendo também nestas águas temos o rinquim (Isurus oxyrinchus), um tubarão de sangue-quente cuja espantosa forma hidrodinâmica nos lembra um torpedo. Aparentemente, trata-se do tubarão mais veloz, julgando-se poder atingir as grandes velocidades dos atuns. São inacreditáveis as descrições de lutas de rinquins com espadartes (Xiphias gladius), envolvendo saltos fora de água. 

Aproximando-nos agora das ilhas, podemos encontrar outras espécies de tubarões pelágicos. São inúmeros os relatos de caçadores-submarinos descrevendo a atracção de cações (Galeorhinus galeus) e cornudas (Sphyrna zygaena) ao arpoarem peixe em águas costeiras. A experiência de mergulho do DOP-UAç com estes tubarões revela-nos a sua grande timidez. São raras as vezes em que temos o privilégio de contemplar e filmar a extrema beleza de um cação ou cornuda que nos investiga curiosamente e, como que à velocidade da luz, desaparece no azul.

Resta-nos então descer às grandes profundezas e conhecer algumas das espécies que por aí habitam. Com grande interesse comercial na região temos a gata-lixa (Dalatias licha) que é alvo de uma pescaria artesanal.
Embora com baixo valor comercial mas com grande aceitação na pesca desportiva existe ainda o albafar (Hexanchus griseus). O recorde mundial de pesca desportiva para este tubarão está registado para a ilha do Faial. Este exemplar, capturado em 18 de Outubro de 1990, pesou 485 Kg.
Para além de tudo o que nos ensina a sua fascinante estratégia de vida, fruto de 400 milhões de anos de evolução nos mares da Terra, os tubarões desempenham um importante papel ecológico: são os predadores de topo das cadeias alimentares marinhas. Ao regularem os níveis das suas populações-presa e ao eliminarem os indivíduos menos favorecidos – tais como peixes doentes ou feridos -, os tubarões contribuem decisivamente para o equilíbrio do ambiente marinho que tanto queremos conservar.
Nos nossos dias, e à medida que vamos presenciando os dramáticos colapsos de inúmeras pescarias tradicionais, surgem-nos os tubarões na lista de potenciais recursos alternativos. O aproveitamento deste novo recurso é variado, desde a utilização da sua carne para alimento até ao uso do seu óleo de fígado para fabrico de vitaminas, produtos cosméticos e lubrificantes. As suas barbatanas entram nos mercados Asiáticos a preços muito elevados, dada a sua grande procura para a tão apreciada sopa de barbatana de tubarão.
Hoje, estima-se que um número próximo dos 100 milhões de tubarões sejam capturados por ano, encontrando-se já diversas populações severamente ameaçadas a nível mundial. Estes números são alarmantes e merecem a nossa atenção imediata. Quando explorados como recurso pesqueiro, o grupo dos tubarões surge-nos como forte candidato à sobrepesca se esta exploração não for precaucionária. Tal facto resulta da sua estratégia de vida ser caracterizada pelo que chamamos de baixo potencial reprodutivo. Os tubarões crescem lentamente durante a sua longa vida (que pode atingir os 70 anos para o tubarão-galhudo, Squalus acanthias), começando a reproduzir-se bastante tarde. Comparativamente à maioria dos peixes ósseos que podem libertar milhares de ovos em apenas uma fase de postura, os tubarões dão origem a um número bastante limitado de descendentes após longos períodos de gestação. Por exemplo, durante a longa gestação de 1 ano, o rinquim e o cação desenvolvem um máximo de 16 e 23 embriões, respectivamente.

Instantaneamente, todos os predadores se afastam da fonte de alimento perante a aproximação de uma gigantesca forma animal. A sua cabeça é larga e achatada e o seu dorso apresenta um padrão único de “pintas” claras, razão pela qual é chamado de pintado nos Açores. É também denominado de tubarão-baleia e trata-se do maior peixe conhecido a nível mundial. O majestoso tubarão atravessa o cardume-presa na vertical, continuamente para cima e para baixo, com a sua boca amplamente aberta. Através da sucção de grandes volumes de água ingere enormes quantidades de chicharro. Em seguida, emerge a sua cabeça à superfície para escoar a água sugada através das sua fendas branquiais.

Contrastando com toda esta frenética actividade submarina, um sereno final de tarde vai estampando tons vermelhos nas águas estanhadas do Banco Princesa Alice. A Ocidente, uma enorme bola de fogo vai desaparecendo no horizonte. Acima da linha do mar, o topo da montanha do Pico eleva-se no céu marcando a sua presença por estas bandas…

Leitura aconselhada:

Compagno, L.J.V. 1984. FAO species catalogue. Vol. 4. Sharks of the world. An annotated and illustrated catalogue of shark species known to date. Parts 1 & 2. FAO Fisheries Synopsis 125. 655pp.

Ellis, R. 1989. The Book of Sharks. Alfred A. Knopf. New York. 224pp.

Gruber, S.H. 1991. Discovering Sharks. American Littoral Society. Highlands, New Jersey 07732. 121pp.

Perrine, D. 1995. Sharks. Colin Baxter. Worldlife library. 72pp.

Springer, V.G. & J.P. Gold. 1989. Sharks in Question. Smithsonian Institution Press. Washington D.C., London. 187pp.

Steel, R. 1992. Sharks of the World. Blandford Press. UK. 192pp.

Biografia

Alexandre Aires da Silva é Licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve. Actualmente, é Investigador Bolseiro no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, onde desenvolve estudos no âmbito da biologia pesqueira de elasmobrânquios (tubarões e raias) deste arquipélago. É também membro da Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação de Elasmobrânquios (APECE), que tem como objectivo contribuir para uma gestão racional e sustentada dos tubarões e raias em Portugal.

Inhttp://www.horta.uac.pt/projectos/MSubmerso/old/199902/Artigo.htm

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