Expo’98 foi há 20 anos


Expo’98 foi há 20 anos

Expo'98

Expo’98

A EXPO’98, Exposição Mundial de 1998, ou, oficialmente, Exposição Internacional de Lisboa de 1998, cujo tema foi “Os oceanos: um património para o futuro”, realizou-se em Lisboa, Portugal, abrindo portas a 22 de maio e encerrando a  30 de setembro seguinte. Teve o propósito de comemorar os 500 anos dos Descobrimentos Portugueses.

A zona escolhida para albergar o recinto foi o limite oriental da cidade junto ao rio Tejo. Foram construídos diversos pavilhões, alguns dos quais ainda permanecem ao serviço dos habitantes e visitantes, integrados no agora designado Parque das Nações, destacando-se o Oceanário (à época o maior aquário do Mundo, hoje cotado como o melhor, com a reprodução de 5 oceanos distintos e diversas espécies de mamíferos e peixes) do arquiteto Peter Chermayeff um pavilhão de múltiplas utilizações, o Pavilhão Atlântico, do arquiteto Regino Cruz (hoje o Altice Arena) e um complexo de transportes com metropolitano e ligações ferro e rodoviárias, a Estação do Oriente, do arquiteto Santiago Calatrava.

A EXPO’98 atraiu cerca de 11 milhões de visitantes. Parte do seu sucesso ficou a dever-se à vitalidade cultural que demonstrou – a título de exemplo, refiram-se os cerca de 5000 eventos musicais. Arquitetonicamente, a Expo revolucionou esta parte da cidade e influenciou as estratégias de requalificação urbana do panorama português , sendo a zona considerada atualmente como um exemplo de requalificação urbana bem sucedida.

A utilização pioneira de ferramentas de design para grandes projetos de arquitetura, engenharia e construção transformou a EXPO’98 num caso de estudo internacional na área do desenho assistido por computador (CAD). O exemplo pegou e outras obras seguiram também a mesma metodologia desta experiência transformada já em «case study».

Expo'98

Expo’98

O pioneirismo da EXPO foi, aliás, ressaltado por um trabalho de reportagem intitulado ‘A Tale of Two Cities’ publicado na edição de Junho de 1999, da Computer Graphics World (volume 22, nº6), a revista de referência internacional do sector.

«Os clássicos estiradores foram substituídos por estações de trabalho. Estávamos em 1993, o que provocou uma verdadeira revolução no modo de trabalhar típico deste sector e representou uma situação ímpar na história de grandes projetos no nosso país». O homem no centro desta operação foi José da Conceição Silva, um especialista de Informática da área de CAD/AEC, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), de Lisboa, requisitado para a Parque Expo para responsável pelo Departamento de CAD, SIG, Web e Multimédia.

História do processo

A ideia de organizar uma Exposição Internacional em Portugal surgiu em 1989 da parte de António Mega Ferreira e Vasco Graça Moura. Ambos estavam à frente da comissão para as comemorações dos 500 anos dos Descobrimentos portugueses liderada Por Francisco Faria Paulino, director do Pavilhão de Portugal na Exposição de Sevilha.

Uma vez obtido o apoio do Governo, Mega Ferreira apresentou o projecto ao Bureau International d’Expositions. A candidatura de Lisboa ganhou à de Toronto. Criou-se uma empresa, ParqueExpo’ 98, com vista a criar um evento auto-sustentável que obtivesse receitas de bilhetes vendidos e pela venda de terrenos adjacentes à exposição.

O primeiro comissário da EXPO’98 foi António Cardoso e Cunha. Foi substituído em 1997 por José de Melo Torres Campos.

Decidiu-se construir a exposição na zona oriental de Lisboa, que vira através dos anos uma degradação crescente. A antiga Doca dos Olivais fora nos anos 40 um contacto privilegiado com o rio onde atracavam hidroaviões, tendo sido denominada de Aeroporto de Cabo Ruivo.

Quando os aviões a jacto de longo curso tornaram os hidroaviões obsoletos, a zona passou a ser um terreno industrial que conheceu uma degradação constante ao longo das décadas seguintes. A zona de 50 hectares onde hoje está o recinto era, no fim dos anos oitenta, um campo de contentores, matadouros e indústrias poluentes. Toda a exposição foi construída do zero. A torre da refinaria da Petrogal, única estrutura conservada, ficou como lembrança do espaço antes da intervenção. Houve um grande cuidado para que quase todos os equipamentos do recinto tivessem utilização posterior, evitando assim o seu abandono e a degradação.

Em paralelo, lançaram-se grandes obras públicas. Entre as maiores estão a Ponte Vasco da Gama (a maior da Europa à data), uma nova linha de metro com sete estações e um interface rodo-ferroviário, a Gare do Oriente.

A 9 de Maio de 1998 realiza-se, o ensaio geral, com a presença de cerca de 40 mil pessoas. A iniciativa procurou simular um dia em pleno funcionamento da exposição. A maioria das instalações e pavilhões encontrava-se com obras a decorrer e no espaço público, devido às sugestões dos visitantes, foram colocados mais bebedouros e locais com sombra, sendo visíveis, as alterações no dia 22 de Maio de 1998, aquando do primeiro dia oficial da exposição.

Bilhética

Foram emitidos bilhetes de um dia (5.000$00–25 euros), três dias (12.500$00–62,35 euros), e bilhetes diários apenas para a parte da noite (2500$00–12,50 euros). Existia também um passe livre com acesso ilimitado à exposição durante três meses (50.000$00–250 euros).

A Swatch lançou alguns meses antes da exposição o modelo Adamastor, que continha um chip carregado com um bilhete de um dia. Para entrar, bastava encostar o relógio ao sensor presente em todos os molinetes de entrada.

Música, logótipo e mascote

O tema musical da exposição foi composto em 1996 por Nuno Rebelo. A peça, de seu nome “Pangea” (o nome do super-continente pré-histórico de onde derivaram os actuais), misturava sobre guitarras portuguesas e uma base sinfónica de cariz épico muitas e díspares sonoridades, originárias dos quatro cantos do mundo.

O logótipo da EXPO’98, representando o mar e o sol, foi concebido por Augusto Tavares Dias, diretor criativo de publicidade.

A mascote foi concebida pelo pintor António Modesto e pelo escultor Artur Moreira. Foi selecionada entre 309 propostas e batizada de Gil (em homenagem a Gil Eanes) por José Luís Coelho, um estudante do ciclo, num concurso que envolveu escolas de todo o país.

Pavilhões e países participantes

Pavilhões

Durante a EXPO’98 houve dois tipos de pavilhões: os temáticos da responsabilidade do Parque EXPO (Departamento de Conteúdos), e os pavilhões das Regiões Autónomas, entidades convidadas e patrocinadores.

Pavilhões temáticos:

Pavilhão do Futuro

Pavilhão da Realidade Virtual

Pavilhão da Utopia

Pavilhão de Portugal

Pavilhão do Conhecimento dos Mares

Pavilhão dos Oceanos

Pavilhão do Território

Pavilhão da Água

Exibição Náutica

Outros pavilhões:

Pavilhão dos Açores

Pavilhão da Guiné-Bissau

Pavilhão de Macau

Pavilhão da Madeira

Países participantes

África

África do Sul; Angola; Argélia; Benim; Botsuana; Cabo Verde; Comores; Congo; Costa do Marfim; Djibuti; Egito; Eritreia; Guiné-Bissau; Lesoto; Madagáscar; Malawi; Mali; Marrocos; Maurícia; Mauritânia; Moçambique; Namíbia; Nigéria; Quénia; República Democrática do Congo; São Tomé e Príncipe; Senegal; Seychelles; Suazilândia; Sudão; Tanzânia; Tunísia; Uganda; Zâmbia; Zimbabué.

América

Antígua e Barbuda; Argentina; Bahamas; Barbados; Belize; Bolívia; Brasil; Canadá; Chile; Colômbia; Cuba; Dominica; El Salvador; Equador; Estados Unidos; Granada; Guatemala; Guiana; Honduras; Jamaica; México; Nicarágua; Panamá; Paraguai; Peru; República Dominicana; Santa Lúcia; São Vicente e Granadinas; São Cristóvão e Névis; Suriname; Trinidad e Tobago;Uruguai; Venezuela.

Ásia

Arábia Saudita; Arménia; Bangladesh; Cazaquistão; China; Chipre; Coreia do Sul; Emirados Árabes Unidos; Filipinas; Iémen; Índia; Irão; Israel; Japão; Jordânia; Kuwait; Líbano; Mongólia;Nepal; Palestina; Paquistão;Quirguistão; Sri Lanka; Turquia; Vietname.

Europa

Expo'98

Expo’98

Albânia; Alemanha; Andorra; Áustria; Bélgica; Bielorrússia; Bósnia e Herzegovina; Bulgária; Croácia; Dinamarca; Eslováquia; Eslovénia; Espanha; Estónia; Finlândia; França; Grécia;Holanda; Hungria; Islândia; Itália; Jugoslávia; Letónia; Lituânia; Luxemburgo; Macedónia; Mónaco; Noruega; Ordem de Malta; Polónia; Portugal; Reino Unido; Roménia; Rússia; Santa Sé; São Marino; Suécia; Suíça; Ucrânia.

Oceânia

Estados Federados da Micronésia; Ilhas Cook; Ilhas Salomão; Kiribati; Papua-Nova Guiné; Samoa Ocidental; Tonga; Tuvalu.

Depois da EXPO’98

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Expo’98

A exposição fechou as portas já ao nascer do dia 1 de Outubro de 1998. A última noite viu a maior enchente da sua história, tendo entrado no recinto depois das 20 horas cerca de 215 mil pessoas. A certo ponto da noite, e por razões de segurança, tiveram de ser destrancados os molinetes de acesso, o que faz com que nunca tenha havido um número certo para a quantidade de gente que se concentrou para ver o fogo-de-artifício de encerramento, o maior alguma vez realizado em Portugal.

De 1 a 15 de Outubro de 1998, o recinto esteve fechado ao público. Reabriu, já como Parque das Nações, recebendo nesse primeiro fim-de-semana mais de 100 mil visitantes. O Oceanário, o Pavilhão do Futuro, do Conhecimento dos Mares, permaneceram com as exposições que exibiram durante a EXPO’98 até ao dia 31 de Dezembro de 1998. Em Fevereiro de 1999 já era possível encontrar algumas alterações no Parque das Nações, tais como:

A entrada principal, frente à Gare do Oriente, reconvertida para Centro Vasco da Gama, administrado pelo grupo Sonae e inaugurado no final de Abril de 1999.

A zona internacional norte passou a acolher a Feira Internacional de Lisboa.

O Pavilhão da Utopia mudou de nome para Pavilhão Atlântico e, agora como Altice Arena, encontra-se apto a acolher grandes eventos de vários tipos (desportivos, musicais, feiras, press-rooms etc.).

A Torre Vasco da Gama (que posteriormente adaptada para Hotel Myriad by Sana).

O Pavilhão da Realidade Virtual (já encerrado e demolido).

O Oceanário de Lisboa.

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Expo’98

O Pavilhão do Conhecimento, que alberga um museu de ciência.

O Pavilhão do Futuro, hoje transformado no Casino Lisboa.

Muitas zonas do Parque das Nações foram sendo gradualmente vendidas para habitação e escritórios. No fim do processo de venda de terrenos, as receitas tinham superado o custo da exposição em oito vezes.

A zona oriental de Lisboa é hoje o bairro mais moderno da cidade, concentrando áreas comerciais, culturais e de lazer com uma vista privilegiada do rio Tejo. A zona atraiu uma série de instituições e empresas de grande nome, que aí basearam as suas sedes ou representações (Vodafone, Microsoft, Sonaecom SGPS, Sony etc.). Cerca de 28 mil pessoas habitam nas suas áreas residenciais Norte e Sul, integrando a freguesia do Parque das Nações.

Mais informações em Portal das Nações

http://www.portaldasnacoes.pt/

Memórias  pessoais

https://wordpress.com/post/castelodasandrix.wordpress.com/3858

Arquivo RTP

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/expo-98/

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/primeiro-dia-na-expo-98/

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/encerramento-da-expo-98/

 

Expo 98: a música que por lá se ouviu há 20 anos

Vamos lembrar o que se passou no contexto musical na Expo 98 que foi inaugurada há precisamente 20 anos.

Expo 98: a música que por lá se ouviu há 20 anos

Foi há 20 anos que começou a Expo 98. No recinto existiram 17 espaços cénicos vocacionados para acolher vários tipos de espetáculos. Curiosamente, quase 20 anos depois a zona oriental da cidade recebeu outro evento musical de dimensão internacional: o Festival Eurovisão da Canção.

De 22 de maio a 30 de setembro de 1998 a Expo dedicou-se ao tema: “Os oceanos: um património para o futuro” e atraiu cerca de 11 milhões de visitantes. Parte do seu sucesso ficou a dever-se à vitalidade cultural que demonstrou, chegando a ser considerada pelo BIE (o organismo internacional que elege as cidades a receberem as exposições) como a Melhor Exposição Mundial de sempre. O tema musical da exposição foi composto em 1996 por Nuno Rebelo e ganhou o nome de ‘Pangea’, o super-continente pré-histórico de onde derivaram os atuais. A música combinava cantares e instrumentos dos cinco continentes.

Para acolher os muitos espetáculos musicais que ali aconteceram foram criadas várias salas. O Teatro Luís de Camões – Sala Júlio Verne, localizava-se na área sul do recinto, próximo do Pavilhão dos Oceanos e do Pavilhão da Realidade Virtual. Este edifício, da autoria dos arquitetos Manuel Salgado e Marino Fei, foi concebido de acordo com as exigências da sua programação, isto é, com características cenográficas e acústicas e espaços auxiliares próprios para a realização de uma ópera, espetáculos de teatro e de variedades ou musicais. 

O Anfiteatro da Doca, vocacionado para grandes espetáculos de música, teatro, dança, moda e concertos multiétnicos, estava enquadrado no belo cenário natural da Doca dos Olivais. Por ali passaram, entre outros, Ney Matogrosso, Companhia de Dança Deborah Colker, Olívia Byington e João Afonso. Este espaço cénico contava com uma plateia para 1 800 espectadores, 900 dos quais sentados, tendo realizado 160 sessões para 281 070 pessoas.

Quem não se lembra da Praça Sony? Localizada no extremo norte do recinto da Expo 98, a Praça Sony ficou a dever o seu nome ao fornecedor oficial do ecrã gigante aí instalado – o Jumbotron. Durante a Expo, a Praça Sony foi palco de transmissões televisivas em direto, videoclipes e reportagens. Junto à Praça Sony existiu ainda uma zona com 14 bares de serviço permanente e uma enorme pista de dança. Ali os concertos foram, essencialmente, de música pop e rock. Por ali passaram nomes como Lou Reed, Garbage, BB King, Joaquín Cortez, Marisa Monte, Gabriel o Pensador, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Dulce Pontes, Savage Garden, Morcheeba, Xutos e Pontapés, Blind Zero, GNR, Delfins, Maria João e Mário Laginha, entre muitos outros. Albergou 235 sessões no palco principal, com 300 m2, 134 no palco Midnight Tea e 110 sessões autónomas de imagem no Jumbotron. O número total de espectadores ascendeu aos 2,3 milhões.

O palco Promenade foi dimensionado e projetado para a apresentação de formações musicais de maior porte, designadamente bandas ou orquestras, dança tradicional ou contemporânea e grandes grupos corais ou folclóricos. Recebeu todas as quintas-feiras, à meia-noite, o Festival de Guitarra Portuguesa, coordenado por Pedro Caldeira Cabral. Acolheu também, entre muitos outros, o Festival de Guitarra Portuguesa com António Chainho, Companhia de Dança Contemporânea de Angola, Las Malqueridas, Wagner Tiso, Barrio Ballet e Festival 1998 Lisboa Codex. Neste espaço cénico realizaram-se 304 sessões para 356 960 espectadores.

Pelo Palco 6, caracterizado pela presença da música alternativa portuguesa, passaram bandas de hip-hop, rock, pop, dance e outras tendências da música de expressão urbana. No Palco 6, com programação de Henrique Amaro e localizado no interior de uma esplanada na Frente Ribeirinha Norte, foram realizadas 129 sessões para 42 415 espectadores. O desafio, diz Henrique Amaro, foi enorme.

Pouco depois de começar a festa, a 31 de maio, todos os espetáculos agendados tiveram de ser cancelados devido à chuva e vento fortes que se fizeram sentir. Perderam-se, assim, as atuações dos Delfins, que tinham planeado o concerto “Planeta Azul” no anfiteatro ao ar livre da doca, que prometia fazer uma viagem pelo céu, terra e mar, baseado em canções do álbum “Azul” – primeiro disco dos Delfins a ter lançamento internacional. Também a brasileira Maria Bethânia não saiu do hotel para um espetáculo no qual interpretaria poemas de Fernando Pessoa.

Já em junho, o cantor colombiano Carlos Vives, que recentemente voltou à ribalta devido ao dueto com Shakira, ‘La Bicicleta’, prometia animar com músicas da Colômbia. O concerto acabou por causar muita polémica e envolveu uma indemnização ao cantor de cerca de 897 mil euros (180 mil contos) porque foi cancelado. O motivo? Vives nem sequer chegou a concluir a primeira canção do concerto: uma sobrecarga de corrente elétrica queimou os amplificadores de som.

O Dia do Algarve, 4 de junho, é comemorado com as atuações do cabo verdiano Leonel Almeida, de Vitorino e dos Primitive Reason. A 13 de junho a atuação de Ney Matogrosso, no Anfiteatro da Doca, marca o Dia do Brasil na Expo 98. Durante o concerto, assinala-se um momento especial: a entrada do visitante um milhão no recinto da Expo! Fernanda Abreu atua no dia 14. No dia seguinte houve concertos de Mário Laginha e da Ala dos Namorados.

BB King também passou pela Expo com um concerto acompanhado da sua eterna “Lucille”. Fator de grande surpresa foi o dueto que fez com Rui Veloso, embora já não fosse a primeira vez que tal acontecia. No final, B.B.King distribuiu pelos presentes alfinetes de lapela com réplicas da sua famosa guitarra, a “Lucille”, que Rui Veloso garantiu ter oferecido ao avô, que a usou até morrer.

No ano em que Teresa Salgueiro foi mãe, os Madredeus atuaram várias vezes na Expo 98. A 21 de maio ouviu-se ‘Haja o Que Houver’, em dueto com José Carreras. Dia 17 atuaram na Praça Sony.

22 de junho era um dia muito aguardado já que no lado norte do recinto, na área aberta, desfilavam as Marchas Populares de Lisboa com apresentação de Fialho Gouveia. A expectativa era grande, o frio era muito, e uma falha na organização levou a que, exatamente à mesma hora, a Praça Sony abafasse o som típico das Marchas de Lisboa com os muitos watts debitados pelas guitarras de Dave Grohl e dos Foo Fighters, em palco.

Chega o dia 23 e o tão esperado concerto do grupo pop/rock norte-americano Garbage. Em Portugal, tinham conquistado um Disco de Prata; eram muito populares. A incendiária vocalista dava várias entrevistas onde se mostrava satisfeita com o rumo que o rock alternativo estava a tomar.

4 de julho e já muito calor em Lisboa. Na Expo 98 vive-se um dia tropical (Dia de Cabo Verde) com Cesária Évora e Tito Paris a fazerem vibrar a multidão que enchia a Praça Sony através de mornas e coladeras entoadas com o sentimento que celebrizou a “diva dos pés descalços”. A 15 de julho, Dia Nacional do Kuwait, atua Rui Veloso na Praça Sony (ou vídeo-estádio, como os jornalistas mais puristas a descreviam), enquanto António Pinho Vargas atua no Palco Promenade.

17 de julho é o Dia Nacional da Jordânia na Expo 98 comemorado com um Festival de Música da CPLP. A 24 de julho, o Anfiteatro da Doca está por conta do português José Cid e, no mesmo dia, há música com a banda angolana Kussondolola, na Praça Sony. O Dia Nacional da Espanha, a 25, conta com uma gala pelo tenor Alfredo Kraus, acompanhado pela Orquestra Sinfónica de Madrid, no Teatro Camões. No dia 26, quando se cumprem metade dos 132 dias de duração da Expo e o Dia Nacional de Cuba, entra em cena a orquestra Ritmo Oriental, de La Havana, e a 27 o espetáculo espanhol “Nalaua”. A 28 de julho atua a banda Blind Zero num concerto onde dava a conhecer o álbum “Redcoast”. A banda viria a tocar várias vezes na Expo quer na Praça Sony, quer no Palco 6, como lembra o vocalista da banda, Miguel Guedes.

Mafalda Veiga mostra os seus talentos dia 29 na Praça Sony, onde no dia 30 Sérgio Godinho tem encontro com o público, convidando os Gaiteiros de Lisboa, Guto Pires, a Companhia Bengala e Da Weasel, numa jornada com a presença da brasileira Fafá de Belém.

Ainda em julho, um novo recorde de afluências da Expo-Noite foi batido na altura em que decorria o concerto de Caetano Veloso, Pedro Abrunhosa e Paulino Vieira, com a entrada de 35 455 pessoas, de um total de 94 993 em todo o dia.

Entramos em agosto e, no dia 3, ouvimos a brasileira Maria Bethânia que regressa à Expo, para atuar na Praça Sony, concerto que viria a repetir logo no dia 5, e no dia 7 há música tradicional galega com os Milladoiro que iniciam uma série de atuações na Expo, enquanto a “diva dos pés descalços”, a cabo-verdiana Cesária Évora, dá concerto na Praça Sony, desta vez acompanhada por Marisa Monte, Dulce Pontes e pelo grupo de dançadeiras Finka Pé.

No dia 11, na Praça Sony tem lugar um concerto de solidariedade para com a Guiné-Bissau, com atuações de Dulce Pontes, Rui Veloso, Sara Tavares, Paulo Gonzo, Jorge Palma, Pedro Caldeira Cabral, General D, Cool Hipnoise, Tim, Filipa Pais, Guto Pires, Carlos Martins, Bernardo Sassetti, Camané, Angelo Torres e Miguel Hurst, revertendo o valor das entradas da Expo-Noite inteiramente a favor do povo daquela ex-colónia portuguesa.

A 18 de agosto, o cantor colombiano Carlos Vives volta à Expo 98. Desta vez teve muito público e correu tudo bem. No mesmo dia assiste-se a um concerto inédito do antigo baterista dos Beatles, Ringo Starr.Ali apresentou o seu álbum “Vertical Man”, 16.º da sua carreira a solo, acompanhado pela All Starr Band. No dia seguinte há Luís Represas e um concerto de jazz com Mário Laginha (piano) e Maria João (voz). A 25 de agosto, e prestes a lançar o seu álbum “Taco a Taco”, Amélia Muge dá um concerto na Expo 98 no qual tem como convidados Jorge Palma e o grupo búlgaro Pirin Folk Ensemble. Dia 29 é a vez de David Byrne no palco principal.

Chega setembro e no dia 14 o bailarino espanhol Joaquin Cortés brilha na Praça Sony. Um dia depois temos destaque por conta das atuações da Companhia de Dança de Olga Roriz, de Paulo de Carvalho, fado com Alexandra e Rodrigo, Festa Cigana e o concerto dos Zen. 23 de setembro de 1998 foi inesquecível para quem viu o concerto de Lou Reed, na Praça Sony, no mesmo dia em que o recinto voltou a acolher espetáculos de Sérgio Godinho, Manuela Azevedo, dos Clã, e General D.

Uma muralha de fogo de artifício nunca vista, com dois quilómetros de extensão por 140 metros de altura, e o ritmo vertiginoso do pai do rock n’ roll, Chuck Berry, marcam a festa do fim da Expo, a 30 de setembro. O maestro António Vitorino de Almeida, ao piano, e Paulo Vaz de Carvalho oferecem melodias no Pianomóvel, em contraste com as  sonoridades africanas que se podem ouvir no Palco 3, pelo angolano Paulo Flores e os seus convidados Tito Paris, Nandinho, Ottis, Manecas Costa e Lura. A parede branca do Pavilhão do Conhecimento dos Mares é o pano de fundo para uma projeção da cronologia de Zeca Afonso nessa noite na qual também houve uma homenagem de músicos ao guitarrista Carlos Paredes.

In Rádio Comercial

http://radiocomercial.iol.pt/noticias/79442/expo-98-a-musica-que-por-la-se-ouviu-ha-20-anos

 

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A batalha de La Lys e o Soldado Milhões


A batalha de La Lys e o Soldado Milhões

No dia 9 de Abril de 1918, durante a Primeira Guerra Mundial, os militares portugueses do Corpo Expedicionário Português (CEP) enfrentaram uma ofensiva alemã no que ficou conhecido como a Batalha de La Lys. Pela desproporção entre as tropas (os alemães eram em número superior), circunstâncias (os homens do CEP iam ser rendidos em breve) e consequências (milhares de mortos, feridos e prisioneiros de guerra), a Batalha de La Lys foi um dos momentos mais dramáticos da nossa história recente. Dois anos depois, seguindo o exemplo de vários países de homenagear os soldados cujos corpos nunca foi possível identificar, chegaram a Portugal dois corpos de soldados desconhecidos: um de França (Flandres) e outro de África (Moçambique), as duas zonas onde Portugal teve soldados durante o conflito. Numa cerimónia repleta de simbolismo e dramatismo, os corpos chegaram a Lisboa a 9 de abril de 1921, seguindo em cortejo até ao Mosteiro da Batalha, onde permanecem desde então. Na imagem (Arquivo Municipal de Lisboa), o Presidente António José de Almeida, acompanhado pelo bispo de Leiria, pelo marechal Joffre (comandante das tropas francesas durante a guerra) e pelo general Horace Smith-Dorrien (comandante das tropas britânicas), entre outras individualidades, no claustro do Mosteiro da Batalha, à chegada dos corpos dos soldados desconhecidos. A Batalha de La Lys conserva ainda hoje uma carga mítica comparável à da Batalha de Aljubarrota.

In Museu da Presidência da República

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1213665061984870&substory_index=0&id=109274725757248

Publicado originalmente a 9 de abril de 2016

https://wordpress.com/post/castelodasandrix.wordpress.com/5222

Ensina RTP – Batalha de La Lys – documentário

http://ensina.rtp.pt/artigo/batalha-de-la-lys-documentario/

Linha da Frente (XX)

La Lys, Batalha Centenária | 05 Abr, 2018 | Episódio 12

Em 9 de Abril de 1918, a tropa portuguesa que guarnece um sector de 11 Km da frente é composta por soldados vindos de um país atrasado, analfabetos na sua maioria, e desmoralizados por diversos motivos: o frio, a fome, a lama, os piolhos, as rações intragáveis, o calçado que apodrece, as fardas que se encharcam.
A tudo isto foram-se juntando os tempos intermináveis de permanência nas primeiras linhas, a rotação de tropas que não se faz, as licenças que só os oficiais podem gozar. Em 4 e 5 de abril dá-se o maior de vários motins que agitaram o Corpo Expedicionário Português (CEP) antes da batalha. A autoridade do comandante do CEP, general Tamagnini, só é restabelecida mediante a ameaça de utilizar artilharia pesada contra soldados do seu próprio exército.
Na noite de 8 para 9 de abril, cai sobre esta tropa o peso de uma das maiores máquinas de guerra do mundo. Em poucas horas, as posições portuguesas são varridas. Os episódios de resistência são raros e de contornos duvidosos – como o do “Soldado Milhões”. Cerca de quatro centenas de soldados são mortos e muitos mais, cerca de 6.500, caem prisioneiros. Nos campos de internamento, irão passar fome e frio, mas não mais do que os seus captores. A desumanidade no tratamento dos prisioneiros não atingiu ainda os extremos que virão duas décadas mais tarde.
“La Lys, Batalha Centenária” é uma grande reportagem do jornalista António Louçã, com imagem de Paulo Lourenço e edição de Paulo Nunes.
O “Linha da Frente” é um dos espaços mais premiados e mais vistos da televisão portuguesa. Com coordenação da jornalista Mafalda Gameiro, todas as semanas retrata uma realidade diferente, com a ambição de mostrar e contar mais histórias do mundo sem esquecer o seu foco português.

https://www.rtp.pt/play/p4231/e339848/linha-da-frente

Soldado Milhões

Aníbal Augusto Milhais, o Soldado Milhões, nasceu a 9 de Julho de 1895 tendo sido o soldado português mais condecorado da I Guerra Mundial. De igual forma, foi o único militar português premiado com a mais alta honraria nacional, a Ordem de Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito (Ordem Militar da Torre e da Espada, Lealdade de Valor e Mérito) no campo de batalha em lugar da habitual cerimónia pública em Lisboa.

Nascido em Valongo de Milhais (anteriormente apenas designada Valongo, assumiu também o nome Milhais em 1924 em homenagem ao soldado Milhões), em Murça, Aníbal Milhais era trabalhador agrícola quando assentou praça no Regimento de Infantaria nº 19, em Chaves, trabalho ao qual regressou depois de desmobilizado após a participação portuguesa na I Guerra Mundial.

O soldado Milhões ganhou notoriedade quando, durante a Batalha de La Lys (Abril de 1918), ao encontrar-se sozinho na sua trincheira, apenas munido de uma metralhadora Lewis, conhecida entre os militares portugueses como Luísa, fez frente às colunas alemãs que se atravessaram no seu caminho.

A sua atitude permitiu a retirada de vários soldados portugueses e ingleses para as posições defensivas da retaguarda. Enquanto caminhava pelas trincheiras e pelos campos, algumas vezes ocupados pelos alemães, o Soldado Milhões continuou a fazer fogo esporádico, recorrendo a cunhetes de balas que foi encontrando. Quatro dias depois do início da batalha salvou um médico escocês de morrer afogado num pântano. Agradecido por ser salvo, o médico escocês contou ao exército aliado os feitos do soldado português.

Já regressado a um acampamento português, foi saudado pelo comandante da sua Unidade que proclamou que o militar transmontano ficaria para a História de Portugal: “Tu és Milhais, mas vales Milhões!”.

Morreu a 3 de Junho de 1970, na sua terra natal.

Publicado originalmente a 11 de janeiro de 2012

https://wordpress.com/post/castelodasandrix.wordpress.com/3289

“Soldado Milhões”

Um filme de Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa

http://www.imdb.com/title/tt7170698/

 

90 anos a pedalar


90 anos a pedalar

A Volta a Portugal em Bicicleta, que tem início hoje em Lisboa, completa este ano 90 anos.

A sua primeira edição foi criada pelos jornais Diário de Notícias e Os Sports. Segundo Gil Moreira, na sua obra “A História do Ciclismo em Portugal”, a ideia de realizar uma Volta a Portugal partiu do jornalista de  Os Sports, Raul Oliveira. 

A primeira Volta teve início a 26 de Abril na Praça Marquês de Pombal e dirigindo-se ao Cais do Sodré, onde os ciclistas embarcaram no cacilheiro Atalaia até Cacilhas, onde começou a competição propriamente dita.

O número de ciclistas que participaram na primeira edição diverge, de acordo com os jornais organizadores. Assim, Os Sports fala 37 corredores e o Diário de Notícias de 26 de Abril em 42. A explicação desta diferença estará relacionada com a data da notícia: a 26 eram esperados 42 ciclistas, tal como referia o Diário de Notícias. No entanto, como Os  Sports só dá a notícia um dia depois da partida refere já o número correto de ciclistas que se apresentaram à competição.

A primeira edição teve 18 etapas distribuídas ao longo de 20 dias e foi vencida por Augusto Carvalho, do Carcavelos.

 

Davida Guetta na Eurovisão


Festival da Eurovisão 2017

Terceira Parte

E agora sim, vamos ao Salvador e à Luísa. Não consigo separar os dois, porque a canção só resulta pelo valor dos dois.

A primeira vez que vi o Salvador, vi sem som. Foi nas notícias da manhã seguinte ao Festival da Canção RTP e devo confessar que fiquei tão intrigada que nem me lembrei de tirar o televisor do mudo. 

Que será que se está a passar com o miúdo? Aqueles tiques todos devem ser dos nervos. É que apesar do Festival ter perdido importância, está a passar na RTP, o que significa que há muita gente a ver. 

Depois pensei que não, achei que aquilo devia ser só a maneira dele se expressar. Lembrou-me muito as cantoras de jazz – e só digo cantoras porque a grande maioria das vozes do jazz são femininas -, cheias de pequenos movimentos intrincados que não fazem sentido ao cidadão comum mas que têm tudo a ver com a renda delicada que é uma música jazz. Sim, eu sei que já repeti três vezes a palavra jazz. Perdão, quatro. É um dos truques para o blogue ser encontrado com maior facilidade por essa internet fora.

Mais tarde, apercebi-me da polémica que a atuação do Salvador estava a gerar e a primeira coisa que me veio à cabeça foi que a RTP tinha acertado em cheio na edição deste ano do seu festival. Pelas melhores e pelas piores razões, toda a santa alma nesta terra – e também além fronteiras – estava a falar do rapaz esquisito que tinha vencido o Festival.

Comecei a ler alguns posts e constatei de imediato aquilo que há muito suspeitava: existe muita gente ressabiada e sem nada para fazer na vida.

Decidi então ouvir a música e foi um bocadinho como o Fernando Pessoa dizia da Coca-Cola, primeiro estranha-se, depois entranha-se.

E depois de a ouvir diversas vezes, aconteceu-me aquilo que muitas vezes me acontece com algumas músicas jazz – eu sei, quinta vez – em que, gradualmente, a cada audição, vou descobrindo pequenos acordes, ligeiros volteios de voz, detalhes quase invisíveis que tecem a canção como uma filigrana. No fim, temos uma verdadeira canção que, apesar de soar tão simples – e less is more, em tudo – tem uma construção tão complexa que leva arenas inteiras a ficar em silêncio voluntário. O silêncio no final de uma canção é um péssimo sinal, mas no início significa tudo. 

É uma música que apela aos sentidos e que em muito me lembra aquele cinema italiano que trata assuntos doentiamente tristes de uma forma tão sensível que tudo se torna bonito. Aliás, é uma canção muito cinemática, um pouco como Lisboa à chuva. Basta fechar os olhos enquanto se ouve e qualquer um de nós realiza o seu filme.

Esta é a parte da responsabilidade da Luísa.

Já o Salvador, os seus movimentos são seus e só seus, um sinal que é original e não mais um produto igual a tantos outros. Eu sei que em Portugal, mais que crime, ser original é pecado, mas eu sou uma pecadora assumida.

É afinado, sabe usar o instrumento vocal onde e como deve ao longo da canção e aquele seu ar de menino desprotegido cativou e continua a cativar público por esse mundo fora.

A Eurovisão arriscou com o Salvador mas arriscou bem. É uma canção intimista, apesar da grandiosidade de alguns instrumentos, que deve ser executada no meio do público sem mais artifícios que não sejam a própria música. 

E foi isso que a organização fez. Colocou aquele menino doce sozinho num meio de uma multidão exuberante e culturalmente diversa, baixou as luzes e provou que aquilo que a maioria considera como a forma mais errada de fazer televisão pode resultar em pleno. Na arena e nos pequenos ecrãs. Tinha tudo para falhar mas acertou em cheio.

Amanhã é o dia de todas as decisões.

Se Portugal não ganhar – o mais provável, uma vez que não temos dinheiro para isso -, já venceu na mesma. E isto não é aquela eterna conversa portuguesa que ficamos em segundo mas jogámos melhor que os outros. Não.

Portugal já saiu vencedor porque levou a canção de maior qualidade desta edição da Eurovisão. Venceu porque os públicos internacionais, e são eles quem compra bilhetes para os concertos, gostam. Venceu porque provou que é a simplicidade das coisas que faz a sua beleza.

E venceu, sobretudo, porque mostrou que este projeto de nação à beira-mar plantado tem muito mais para dar em matéria musical do que o fado, que, não obstante o seu valor inegável, já começa a cansar os estrangeiros e muitos portugueses, embora poucos o admitam.

Quanto a mim, não sei se vou acompanhar o Festival da Eurovisão. É que o Benfica joga amanhã, o que significa que a minha religião não me permite prestar atenção a outras fés.

The End

David Guetta na Eurovisão


Festival da Eurovisão 2017

Segunda Parte

E estamos de volta à antena, depois de uma suposta breve pausa para compromissos comerciais.

Pelo meio, já houve uma atentado em Roma – estes terroristas não têm mesmo nenhum sentido de oportunidade – , as autoridades cambaleiam entre aterrar o avião do Francisco em Leiria ou em Lisboa e o Benfica continua a preparar mais uma final.

Entretanto, num país distante chamado Ucrânia, prossegue o Festival.

Resta-me ainda fazer algumas observações antes de chegar ao Salvador e à Luísa.

Outro dos favoritos, o concorrente da Bulgária, insere-se naquela categoria que eu gosto de chamar de “rapazes a quem cortava o cabelo à chapada”. Ou seja, está completamente à altura do seu ídolo, o canadiano Bieber, com o mesmo cabelo que está a precisar de ir à tropa, a mesmo movimentação que padece de excesso de esforço – e tudo o que é demais é moléstia – e músicas que são todas iguais umas às outras. Troca-se a ordem dos samples, junta-se uma suposta pianada aqui e ali, vai-se buscar uma letra ao primeiro álbum e inverte-se o refrão. Tenho pena destes rapazes. Mas, sobretudo, tenho pena de mim própria, já que levo com eles mesmo quando não quero.

Já o na Croácia, pelo menos, não se vale do seu aspeto físico. Mas se calhar era melhor, uma vez que talento musical não tem nenhum. Apesar da longa carreira no país natal e da voz com um largo espectro, a prestação do croata resultou numa amálgama aparvalhada, numa espécie de um filho do Pavarotti com o concorrente irlandês, um rapazito tão delicodoce que enjoa.

Aquele que achou que seria a Conchita desta edição, o montenegrino, enganou-se redondamente. Nem sequer chega aos calcanhares da Conchita e aquela trança só serve para o pendurar nas cordas da roupa. Além disso, o esquema Victor/Victoria só resulta quando se trata de um filme com alguém da categoria da Julie Andrews.

A Noruega resolveu levar uma dupla que deve resultar muito bem numa mega rave. Mas só no dia em que eles crescerem, ouvirem muita música ou se se dedicarem à venda de pastilhas. Ou menos podiam ser bonitos, mas nem isso. Aliás, o elemento masculino da espécie não está muito bem representado nesta edição, lamentavelmente.

Dos países que tiveram entrada direta para a final, só ouvi dois concorrentes e faço questão de não ouvir mais nenhum antes de amanhã, mesmo correndo o risco estar a ser injusta.

A Espanha, com mais um rapazinho delicodoce mas que, pelo menos, traz uma canção despretensiosa que parece escrita pelos Beach Boys depois de uma noite animada pela sangria em Sevilha.

E a Inglaterra. Mais uma mocinha que teria emprego garantido como sirene da Lisnave se a Lisnave não tivesse já fechado. Deve ser por isso que está na Eurovisão.

Quanto aos outros, resta uma palavra – mais, mas enfim – para o país convidado, a Austrália. Da próxima vez, tragam os AC/DC, mas sem o Axl Rose. Não que seja fã, mas entre ouvir aquela desgraça de concorrente ou uma banda que faz mais barulho que um 747 com os motores em plena, fico-me pelos últimos.

Chegou a vez do Salvador que, se não tivesse mais nada, tinha o nome apropriado ao espírito português nestas coisas.

Mas antes, vamos a mais uma pausa. Desta vez, breve e sem compromissos comerciais. Só autopromoções.

Até já. Vocês não vêem mas estou a piscar o olho como o José Rodrigues dos Santos.

 

David Guetta na Eurovisão


Festival da Eurovisão 2017

Primeira parte

O Festival da Eurovisão 2017 tem ocupado os espaços televisivos nos últimos dias de uma forma que poderá mesmo concorrer com a visita do Papa a Fátima.

Ao contrário do que muitos pensam, o festival não perdeu importância nem público, muito pelo contrário. Mudou, talvez, o tipo de público e tornou-se um fenómeno de popularidade em países que nem sequer sabiam que tal espetáculo existia. É verdade, o Festival movimenta milhões, literalmente, de espetadores mas também de euros.

Para aqueles que não sabem – e já percebi que há muitos – a Austrália participa este ano tal como já o fez em edições anteriores. Trata-se do país convidado deste ano, uma técnica a que a Eurovisão recorreu para chamar outros públicos e que tem produzidos resultados. A “novidade” tem já alguns anos, para os mais distraídos.

Estranho mesmo – e sempre o foi para mim – é ter Israel como país europeu.

De volta à Ucrânia, a edição deste ano – e do que eu vi, porque não segui atentamente as duas semifinais  – não difere muito das mais recentes que a antecederam.

Muitas candidatas que acreditam piamente que ser uma boa cantora é atingir o máximo possível de decibéis enquanto balem como uma borrego desesperado para não desafinarem; alguns rapazes que se julgam entre um Justin Bieber entre o alternativo e o intelectual e outros que não deviam cantar nem sequer no chuveiro; concorrentes que, sabendo que este é um espetáculo televisivo mas tendo plena consciência da sua incapacidade cénica, decoram a sua atuação com os olhos colados nas câmaras; playbacks vergonhosos; toneladas de músicas eletrónicas que se arrogam de serem dançáveis mas cuja batida não consegue fazer mexer nem um organismo unicelular, quanto mais um humano. Sugiro que, em 2018, a França leve como concorrente o David Guetta. Pelo menos, goste-se ou não, sabe como por os corpos a mexer com a batida certa que desperta o cérebro humano.

Vestidos que mais parecem para uma gala dos Óscares patrocinada pela loja do chinês, cabelos que, das duas uma: ou viram demasiada escova ou não viram escova nenhuma. Nos homens, muitas tentativas vãs de “fazer”moda.

Portanto, nada de muito diferente do habitual. Mas o Festival da Eurovisão é isto mesmo. Salva-se o espetáculo cénico, sempre bem composto e grande parte do sucesso de um programa de televisão que desde os ABBA não dita tendências musicais.

No entanto, nos últimos anos têm sido notório algum arrojo que tem mantido os admiradores presos ao acontecimento e 2017 não é exceção.

Do que vi, gostei da prestação do duo da Finlândia, com uma canção digna desse nome, do concorrente da Hungria, com uma arriscada mistura de música cigana com rap, e até do concorrente israelita que, ao contrário do que muitos disseram, apresentou uma música eletrónica verdadeiramente dançável. 

Ao Salvador – sim, gosto da música e até do rapaz – já lá vamos. Save the best for last, como dizem os americanos, que também vêem o Festival da Eurovisão.

Já aquele que as casas de apostas apontam como o potencial vencedor, o concorrente italiano, apenas vi um homem feio – alguém conseguiu descobrir um homem feio em Itália, um feito quase tão difícil como contatar com aliens -, mal vestido e que se contorceu em palco como uma centopeia a sofrer um episódio epilético ao som de qualquer coisa que me pareceu um motor de uma carro a afogar-se. 

Quanto à concorrente belga, que divide opiniões, talvez a rapariga de faça, mas deixou-se dominar pelo nervosismo e acabou por desafinar numa música que também não lá grande coisa, mas que pelo menos é uma canção a sério.

As irmãs holandesas – os irmãos estão a dar que falar nesta edição –  que tantos elogios receberam dos espetadores masculinos (sim, os homens também vêem o Festival, só não o confessam), cantarolaram uma coisa qualquer que me soou a um cruzamento entre girl band inglesa dos finais dos anos 90 e duplas pop-country norte-americanas. Pelo menos, não desafinaram, a não ser naqueles vestidos que foram buscar ao armário da Diana Ross. É nestes casos que eu agradeço que a televisão não tenha cheiro, se não ninguém aguentava o fedor a naftalina.

Querem saber mais? Esperem, que daqui a pouco já vos conto. 

Volto já, voltem também. Mas voltem mesmo, porque consigo perceber pelas estatísticas se voltaram mesmo.

Intervalo para compromissos comerciais. O programa segue dentro de momentos.