As minhas “estórias” do meu bairro X


As minhas “estórias” do meu bairro X

A ideia de criar um conjunto de pequenas crónicas sobre a Penha de França surgiu depois de ter escrito o livro sobre esta que é a minha freguesia, um documento meramente objetivo e informativo. No entanto, a verdadeira inspiração partiu de um projeto da Biblioteca da Penha de França denominado “Vidas e memórias de bairro”.

Esta iniciativa, que surgiu em 2015, é dirigida aos idosos da freguesia e pretende “recuperar e divulgar histórias de vida, vivências, testemunhos, relatos e memórias importantes e relevantes que estes desejem partilhar e preservar”.

“Vidas e memórias de bairro” tem lugar todas as sextas-ferias à tarde, entre outubro e maio e parte de “sessões denominadas “oficinas comunitárias da memórias” durante as quais é trabalhado um determinado tema relacionado com o património material e/ou imaterial da freguesia”.

In

http://blx.cm-lisboa.pt/vidasmemoriasbairro

O mundo comercial da Penha

A retrosaria do sr. Luís não era apenas uma retrosaria.

Na realidade, nem sequer me lembro da minha avó ali comprar botões.

Ali, naquela loja meio obscura, com um balcão que a atravessava e atrás do qual estava um velhinho muito pálido (ou talvez fosse a pouca luz existente que assim o fazia parecer), alto, magro e já com pouco cabelo, branco como a neve, compravam-se tecidos e lãs.

A loja ficava numa zona da Av. General Roçadas que não estava ainda totalmente urbanizada, já perto de Sapadores, ali para os lados do conhecido Cine Oriente.

Já as linhas, os botões, as rendas e toda a infinidade de coisas que se utilizam nos lavores, essas compravam-se na capelista da D. Júlia, na R. Conde de Monsaraz.

Essa sim, era das minhas lojas preferidas.

Sob comprida, como se ficasse num vão de escada – provavelmente, ficava -, tinha um balcão a todo o comprimento. E era aí que ia buscar os materiais para fazer as roupas para as bonecas.

Certamente que não era apenas isso, mas é o que a minha memória reteve como mais interessante.

Da D. Júlia não me recordo claramente. Creio que usava um pequeno xaile pelas costas. De resto, nada.

Ao lado, ficava a farmácia do sr. Rodrigues.

Bom, talvez não fosse dele, mas era assim que todos a conheciam, pelo nome do farmacêutico.

Era uma loja com uma estrutura curiosa, quase em triângulo, com um banco encostado à montra.

O sr. Rodrigues já está reformado, mas ainda aparece de vez em quando para visitar a farmácia e avistar alguns dos antigos clientes. Entretanto, a farmácia mudou para a rua de baixo.

Outra loja que circula pela minha memória era o café do sr. Manel..

Situado em frente à farmácia, à capelista e à oficina de automóveis vizinha destas, era o posto de abastecimento favorito dos trabalhadores e clientes da garagem.

A oficina chegou a ser um recreio para mim, já que o meu avô, que trabalhou sempre ligado aos automóveis, era seu frequentador habitual. Adorava andar por ali e sentir aquele cheiro intenso a gasolina. Pura, sem aditivos e completamente intoxicante. De facto, estávamos muito longe dos combustíveis sem chumbo.

Quanto ao café do sr. Manel, um homem barrigudo e meio calvo, sempre com o pano da loiça empoleirado num ombro, esse fechou com a morte do proprietário há mais de 15 anos. A loja não voltou a ser ocupada.

Ao lado, ficava uma padaria e um talho, também já encerrados. Um pouco mais à frente, uma tabacaria que ocupava dois andares, embora apenas um estivesse aberto ao público. Recordo-me de ter subido uma vez ou outra ao primeiro andar, sem memória do porquê.

A tabacaria fechou mas a loja voltou a abrir com outras atividades. Hoje tem a indicação de ser uma lavandaria, embora não se perceba muito bem se está ou não a funcionar.

Já no cruzamento da Conde de Monsaraz com a Martins Sarmento ficava a mercearia do sr. Zé e da D. Ana.

A porta principal, cheia de caixas de madeira com frutas, ficava virada para o largo conhecido como “o da cabine” – devido ao telefone público ali instalado -, hoje o jardim Luís Ferreira.

Mas existia uma porta de lado, pequena, por onde se entrava quando se ia a correr buscar qualquer coisa mesmo, mesmo em cima da hora de fechar.

Ali se vendiam frutas, legumes, azeite, açúcar, café, manteiga e bolachas a peso. Acrescentem-se os queijos, o fiambre, o arroz, o feijão, o sabão azul e branco em barra e as bilhas do gás.

A mercearia fechou recentemente, estando a loja agora entregue a outras funções.

Quase ao lado, ficava a tabacaria da Lizete e do Mário, duas das figuras mais icónicas do pequeno mundo constituído por este quarteirão da Martins Sarmento.

A loja era minúscula mas estava atulhada de coisas que, à época, se vendiam apenas nestas lojas.

O tabaco, naturalmente, os jornais e as revistas, o mais diverso material escolar, desde cadernos com o Woody Woodpecker ou o Duffy Duck, aos lápis, canetas, afias, borrachas e todos os outros etcs.

Caminho de Baixo da Penha, na esquina da avenida Alves Roçadas, 1967 Foto de Augusto de Jesus Fernandes, AML PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/AJF/S02008

Caminho de Baixo da Penha, na esquina da avenida Alves Roçadas, 1967 Foto de Augusto de Jesus Fernandes, AML PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/AJF/S02008

À porta, penduradas, as mais recentes edições (e as mais antigas, também) da revista “Mãos de Fada”, naquele seu papel azul escuro grosso que fazia sobressair os trabalhos de croché que ensinava a fazer no seu interior dobrado em quatro partes. E selos de correio. Cá fora, pendurado na parede, havia um estandarte dos CTT.

Lá dentro, atrás do pequeno balcão, lá estava a Lizete, baixinha, de franja e cabelo um pouco mais abaixo dos ombros e que oscilava entre o preto e o branco.

No meio da sua cara de lua cheia, os óculos de fundo de garrafa que faziam os olhos parecer ainda mais pequenos, quase como se fossem apenas uns pontinhos.

Vindo da outra divisão da loja, que tinha um pequeno quintal, de vez  em quando aparecia o Mário. Alto, tão alto que já estava curvado apesar de não ser velho, tinha o cabelo todo branco, com a honrosa exceção de meia dúzia de fios pretos. Parecia um gigante ao pé da mulher.

Eram um casal campista convicto e diz-se que quando fecharam a tabacaria foram viver em definitivo para a sua autocaravana.

Mas apesar de esta tabacaria parecer vender de tudo, a verdade é que não tinha as grandes novidades destinadas às crianças, como os bonecos em PVC da Heidi e do Marco. Esses só se encontravam na papelaria da Av. General Roçadas.

Depois do Mário e da Lizete deixarem o negócio, a loja foi ocupada pela D. Deolinda, mantendo-se como tabacaria numa versão mais arejada e moderna. Mais tarde, a D. Deolinda abriu outra tabacaria, também no bairro, na R. Castelo Branco Saraiva e acabou por fechar a primeira.

Já no século XXI, a loja foi ocupada por um pequeno café que não teria sucesso. Após alguns anos encerrada, reabriu recentemente com serviços informáticos.

No mesmo quarteirão da tabacaria ficava o lugar, o nome que se dava às lojas que vendiam fruta e legumes. Lembro o intenso cheiro a horta e pouco mais.

Quando o lugar fechou, a loja passou a vender candeeiros, assumindo um ar mais desempoeirado e luminoso. No piso térreo, ficava a frente da loja, enquanto na cave, à qual se acedia a partir de uma escada em caracol com um corrimão em ferro dourado.

O negócio ainda se manteve durante alguns anos. Após ter fechado, a loja acolheu diversas atividades, entre as quais uma funerária, quase todas sem sucesso. Hoje alberga um simpático cabeleireiro de bairro.

No final na Martins Sarmento ficava a tasca do galego, que creio se chamava Artur. Parecia que, tal como muitos galegos, a família tinha vindo para Portugal nas primeiras décadas do XX, talvez em fuga da guerra civil espanhola, para montar tascas e vendas.

Como seria de esperar, era uma loja grande, com o chão em azulejos partidos e encardidos, algumas mesas de madeira onde se sentavam os homens com um copo de três para animar o jogo de cartas.

O cheiro a vinho tinto de péssima qualidade empestava o ar e ficava entranhado nas roupas.

Dele não recordo, a não ser que tratava com doçura quando lá ia buscar uma garrafa de laranjada espanhola que fechava com uma rolha branca de cerâmica presa ao gargalo por um ferrinho. Naturalmente, já não existe, tendo a loja sido transformada num apartamento.

Mas o  mundo comercial da minha infância e da minha juventude alargava-se a outras paragens da freguesia.

Na Av. General Roçadas, e para além do sr. Luís, havia os cafés da Alice e da Ana.

Mantêm-se ambos, entregues aos herdeiros e depois de diversas obras de remodelação.

Acrescente-se ainda um outro café – creio que o proprietário se chamava Marques – e do qual me ficou na memória apenas a casa de banho que, na realidade, não merecia esse nome.

As casas de banho dos cafés e restaurantes não eram como as de hoje em dia, mas a maioria era bastante aceitável.

Já aquela, era aquilo que alguns chamavam de casa de banho turca: uma divisão com o chão em azulejo e um buraco no meio.

Adiante.

Do café da Alice, só do nome.

No caso do da Ana, lembro-me que ali tomava um garoto antes de ir para a escola primária. E do misterioso salão de bilhar que ficava ao fundo, escondido atrás de uma “semi” parede de vidro martelado. Era um local interdito às crianças como eu, mas dava para imaginar como seria quando, numa ida à casa de banho – mais uma, a casa de banho – e no meio da penumbra (não se acendiam as luzes a não ser à noite, para os frequentadores habituais) se conseguiam vislumbrar as mesas.

Mais à frente, ficava a padaria da Miss Batons, nome pela qual eu e a minha melhor amiga tratávamos carinhosamente a padeira. De cabelo armado, casaco de malha por cima da bata branca cheia de farinha, como tantas outras padeiras, esta destacava-se pelo seu bâton vermelho escuro impecável.

A padaria fechou, tal como todas as outras que pertenciam à mesma cooperativa que faliu em 2017. Reabriu há poucos dias, também como padaria.

Ainda na mesma avenida, do outro lado, já junto à Pç. Paiva Couceiro, havia a loja da UCAL, igual a tantas outras de diferentes pontos de Lisboa.

Tinha o aspeto que deveria uma loja que vendia laticínios: austeramente limpa e parcamente decorada.

Ou seja, servia o seu propósito: comercializar as tradicionais garrafas de leite, em vidro, e os iogurtes em embalagens plásticas quadradas. Certamente, venderiam outros produtos da marca, mas estes são os que recordo, em particular o iogurte de chocolate.

A loja fechou, tendo sido ocupada por diferentes atividades comerciais até à atualidade.

Quase ao seu lado, o fotógrafo Toni, aquele espaço mágico onde todos íamos fazer as fotos para os documentos de identificação e para oferecer aos parentes mais chegados.

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Fotógrafo: Toni

O estúdio ficava na cave, cheia de coisas que pareciam chapéus-de-chuva e simples telas brancas.

Durante décadas, este foi o fotógrafo mais conhecido do bairro e arredores, mantendo-se em funcionamento até ao século XXI.

Hoje a loja é ocupada por um café de especialidades gregas, mas já acolheu um cabeleireiro e uma loja de reparações informáticas.

Já na Paiva Couceiro (ou na Paiva, como a miudagem lhe chama), a minha maior memória ficou registada no restaurante Pica-Pau, não porque tenha gratas recordações das suas delícias gastronómicas, mas porque o estabelecimento pertencia aos pais de um colega da primária.

Por ali festejámos alguns aniversários, no piso de cima para não perturbar o funcionamento normal do restaurante, e por ali jantei algumas vezes com os meus pais.

O restaurante mantém o nome mas mudou de proprietários. O colega cresceu e parece que seguiu arquitetura.

Penha de França - Do Rio à Colina Sandra Terenas Edições Fénix

Penha de França – Do Rio à Colina Sandra Terenas Edições Fénix Com o apoio da Junta de Freguesia da Penha de França

“Penha de França Do Rio à Colina”, Sandra Terenas

Edições Fénix

Com o apoio da Junta de Freguesia da Penha de França

Penha de França do Rio à Colina”, procura levar ao conhecimento dos cidadão o património cultural e a identidade própria da Freguesia da Penha de França. É este território, que inclui o Tejo e o ponto mais alto de Lisboa, o Miradouro da Penha de França, que constitui a fronteira entre o centro histórico e a zona oriental da capital.

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ESPRESSO transforms VLT into today’s largest optical telescope


Space Today

FEATURE: ESPRESSO transforms VLT into today’s largest optical telescope

ESPRESSO is being developed and built for ESO (first light in 2017) by a consortium of 4 countries, including Portugal through the IA. The IA is involved in ESPRESSO since its conception, with one Co-PI of the project. ESPRESSO is currently in the procurement and construction phase. The Portuguese participation is fully assured by IA, including scientific and technological aspects (IA is responsible for the Coudé Train component, including design, procurement, and implementation). The key science goals of the consortium are to use this new-generation spectrograph to search for rocky extra-solar planets in the habitable zone of nearby stars and to determine the possible variability of physical constants. The consortium will be granted more than 270 nights of observations with the VLT to accomplish its scientific goals.

http://www.iastro.pt/research/espresso.html

More than 20 years after its launch, one of the main objectives of…

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Tiangong-1


Space Today

FEATURE: Tiangong-1 

Tiangong-1, the first chinese space station (actually, a prototype) will descend gradually in the coming weeks, and the space laboratory will eventually be destroyed by heat in Earth’s atmosphere around March.

Chinese scientists say it will be a safe process with no risk to structures or humans. However, the different statements made over the laste months make us wonder even about the crashing site. Sometimes it’s Portugal and Spain, other mention India…

Harvard astrophysicist Jonathan McDowell, among others, has noted that parts of the craft such as the rocket engines are probably too dense to be burnt up upon re-entry and may result in chunks of debris up 100 kg in weight falling to the Earth’s surface, with little possibility of predicting where they may crash.

Tiangong-1 (Heavenly Palace-1 or Sky Palace-1, in English) is China’s first prototype space station, serving as both a manned laboratory and an experimental test bed to demonstrate orbital rendezvous and docking…

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