As minhas “estórias” do meu bairro IX


As minhas “estórias” do meu bairro IX

A ideia de criar um conjunto de pequenas crónicas sobre a Penha de França surgiu depois de ter escrito o livro sobre esta que é a minha freguesia, um documento meramente objetivo e informativo. No entanto, a verdadeira inspiração partiu de um projeto da Biblioteca da Penha de França denominado “Vidas e memórias de bairro”.

Esta iniciativa, que surgiu em 2015, é dirigida aos idosos da freguesia e pretende “recuperar e divulgar histórias de vida, vivências, testemunhos, relatos e memórias importantes e relevantes que estes desejem partilhar e preservar”.

“Vidas e memórias de bairro” tem lugar todas as sextas-ferias à tarde, entre outubro e maio e parte de “sessões denominadas “oficinas comunitárias da memórias” durante as quais é trabalhado um determinado tema relacionado com o património material e/ou imaterial da freguesia”.

In

http://blx.cm-lisboa.pt/vidasmemoriasbairro

O Natal

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A forma de viver a época de Natal mudou muito nos últimos 40, 50 anos.

Nos Natais da minha infância, o bairro não tinha iluminações de rua, tal como muitos outros recantos de Lisboa.

Na altura, o brilho das luzes era coisa das zonas mais nobres da cidade, como a Baixa ou Alvalade, para onde toda a gente corria para comprar as prendas. Sem centros comerciais, era ali que os pais e as mães e os avós Natais encontravam as maiores modernicies da época que nos deixavam de boca aberta na noite de 24 para 25.

Já os bairros como o meu, a luz e as cores natalícias mostravam-se nas montras das tabacarias e nos pinheiros enfeitados dos cafés e das mercearias, onde os clientes penduravam notas de diferente valor.  Passeando pelas ruas de nariz no ar, podíamos descobrir alguns pelas luzes fraquinhas a brilhar através dos vidros. Porque, afinal, as decorações eram feitas para a família mas com tanto orgulho que se encostavam às janelas e varandas fechadas para que os vizinhos tivessem um vislumbre do que se passava dentro de casa.

Havia também quem pintasse figuras alusivas à época nos vidros, com “neve” em spray ou colasse os bonequinhos que as crianças faziam na escola. Nesta época do ano, as escolas eram um verdadeiro espaço industrial de pequenos seres desenhadores de supostas bolas, sinos, azevinhos e anjinhos de todas as cores que existiam nas latas de lápis de cor e que inundavam o edifício da própria escola e as casas de cada um.

Existia assim como que uma saudável competição para saber quem tinha a decoração mais bonita, uma espécie de filme americano numa versão mais à nossa medida…

Lembro-me em particular de dois exemplos, perto da minha casa: o da cabeleireria Lina e o de uns ilustres desconhecidos de um prédio de esquina. Pensando bem, os dois prédios são prédios de esquina…

O da cabeleireira Lina, dada alguma proximidade das famílias, costumava ver dentro da própria casa. Ao que parece, dizia-se nesta zona do bairro, era das maiores árvores das redondezas e ostentava o título de melhor decoração. Claro que, uma vez que era de uma cabeleireira que toda a gente frequentava, era o pinheiro mais visto do bairro e arredores.

O outro ficava meio escondido numa varanda meio hexagonal – é assim que me lembro dela e não me apetece chegar à janela para confirmar – que se mantinha fechada quase todo o ano, como se os seus proprietários pretendessem manter uma aura de mistério em redor de si mesmos. Mesmo da rua, percebia-se que era um pinheiro enorme e carregado de luzes que brilhavam ao longe. Nunca soube quem morava ali, naquela varanda quase hexagonal, por cima da mercearia, num prédio de esquina.

Os pinheiros eram naturais, arrancados à natureza ainda crianças, sem qualquer ideia do prejuízo causado. Eram assimétricos, um tronco torto, um ramo demasiado saliente, agulhas que se agarravam à roupa e que deixavam um rasto desde a loja onde se compravam até ao seu destino final. E a resina? Ui, essa representava um perigo que, suspeito, não passava de um mito urbano: fazia o cabelo cair!

As árvores de Natal daqueles tempos compravam-se nas mercearias e nas drogarias, coisas também muito naturais naquela época e que já vão rareando.

A minha era comprada na Rua Castelo Branco Saraiva, mas não me lembro em que tipo de loja.

Rua Castelo Branco Saraiva - Arquivo Municipal de Lisboa

Rua Castelo Branco Saraiva – Arquivo Municipal de Lisboa

O primeiro problema era transportá-la para casa.

O percurso não era longo, mas implicava contornar diversos obstáculos, não bater em ninguém, atravessar ruas e, finalmente, subir as escadas do prédio.

Depois seguia-se a complicada tarefa de a instalar, de forma segura e permanente, na sala. Arranjava-se um vaso e folhas de jornal que se enrolavam à volta do tronco torto, apertando-o até se ter a certeza que não tombaria. Por fim, era preciso um papel de embrulho bonito, de preferência com bolas e sinos. para esconder toda aquela salganhada.

O último problema, e provavelmente, o maior, era a decoração.

Lá vinham as irritantes fitas brilhantes, que largavam tantas ou mais “agulhas” que o próprio pinheiro, as luzes que todos os anos tinham uma ou duas lâmpadas fundidas, as bolas que perdiam bocados de tinta a casa utilização, as pinhas falsas prateadas e douradas e um ou outro pináculo gigantesco que ninguém sabia muito bem o que representava. Respirava-se fundo e atirava-se com tudo para cima do pobre do pinheiro até ele desaparecer. Por último, disparava-se com o frasco de spray de tinta branca a fingir neve. Ou então espalhavam-se pedaços de algodão…

 

É por estas e por outras histórias que vos deixo a melhor sugestão para oferecer a alguém no Natal. Podem encontrá-la nas livrarias e papelarias da Penha de França, bem como noutros pontos da capital. Ou então, online. 

Penha de França - Do Rio à Colina Sandra Terenas Edições Fénix

Penha de França – Do Rio à Colina Sandra Terenas Edições Fénix Com o apoio da Junta de Freguesia da Penha de França

“Penha de França Do Rio à Colina”, Sandra Terenas

Edições Fénix

Com o apoio da Junta de Freguesia da Penha de França

Penha de França do Rio à Colina”, procura levar ao conhecimento dos cidadão o património cultural e a identidade própria da Freguesia da Penha de França. É este território, que inclui o Tejo e o ponto mais alto de Lisboa, o Miradouro da Penha de França, que constitui a fronteira entre o centro histórico e a zona oriental da capital.

Ofereçam livros, este em particular

À venda em todas as livrarias e online

 

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