Páscoa na minha aldeia 


Páscoa na minha aldeia 
A época da Páscoa é, provavelmente, uma das melhores alturas para estar em Lisboa. 

Por uns dias, o trânsito torna-se um pouco menos insuportável e as pessoas gritam um bocadinho mais baixo. Isto se não formos passear para as zonas mais históricas. Os que escolhem estender as pernas pela Baixa nestes dias têm que se preparar para enfrentar uma manada de humanos tão grande que mais parece uma praga de gafanhotos no antigo Egito. 

Para os que têm a sorte de viver numa zona tranquila, ficar em Lisboa na Páscoa é como ir à aldeia. 

Os restaurantes e cafés fecham portas – porque os proprietários rumam às suas aldeias, estas sim, verdadeiras -, metade dos vizinhos desaparecem numa corrida desesperada atrás do sol do Algarve e até à um supermercado fecha no domingo de Páscoa. Que heresia, pensarão alguns, que decisão acertada, concluo eu. 

Nos idos de 70 do século passado, estava eu na infância, não tínhamos supermercados sequer e a mercearia do bairro também fechava no dia de Páscoa, fato que nunca impediu ninguém de celebrar a quadra. 

E assim fica só meia dúzia de pessoas nesta aldeia urbana durante quatro dias. Na santa paz do Senhor.  

Nós e, naturalmente,, oa cromos cá do sítio. Sim, porque tal como qualquer aldeia que se preze, também aqui este bairro/aldeia urbana tem os seus cromos. 

O maluquinho que toda a vida se fez passar por louco sem o ser e a quem o universo castigou roubando-lhe a sanidade mental. Aquele homem já avó que consome um maço de cigarros ao longo da manhã e que à tarde anda de café em café a cravar tabaco aos vizinhos. E que fica tempos infindos sentado na paragem à espera de um autocarro que não passa ali. 

A senhora achinesada que todos os dias vai passear o cão, segurando numa mão a trela e na outra um garrafão de água vazio. Acreditava-se que iria encher o garrafão a qualquer lado. A teoria caiu por terra quando se percebeu que, no regresso a casa, o garrafão continua vazio. 

O rapaz que passa revista aos ecopontos da aldeia e dele retira o que lhe pode valer uns trocos. Primeira revista de manhã, a última ao final da tarde. O lixo de uns é a riqueza de outros. 

Aquela senhora cujo penteado foi copiado de um filme da Madalena Iglésias e por lá ficou e que, seja a que horas for, encontramos no autocarro a caminho do médico, da fisioterapia, promoções de um supermercado distante, do lanche com uma amiga que acabou de vir do hospital e que vai para a fisioterapia. E no meio de tanta canseira, o cabelo continua como se tivesse acabado de sair do cabeleireiro. 

E como esquecer o ciclista que faz quilómetros atrás de quilómetros sempre na mesma rua, todo equipado à Sporting, enquanto apita ao trânsito? Ou ou jovem adepto de running que começa e termina os seus dias com uma corridinha pela aldeia, concluída com uma selfie tirada no meio da estrada? 

Podia ficar aqui indefinamente a elencar os cromos desta aldeia mas está na altura de ir até à janela ver se o vizinho inglês da frente – que já faz parte da mobília, uma vez que comprou casa nesta aldeia ainda no tempo em que exercia a sua profissão na ópera – já chegou do seu passeio ao sol. Como vêem, nesta aldeia urbana nem sequer nos falta o cromo do inglês reformado. 

Boa Páscoa, estejam onde estiverem. 

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2 thoughts on “Páscoa na minha aldeia 

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