Je Suis Charlie


Não somos todos Charlie

Se o mesmo género de humor acontecesse por cá, muitas mais seriam as vozes de apoio aos terroristas. Sim, porque houve vozes de apoio. Muitas. Demasiadas

Texto de Nelson Nunes • 08/01/2015

http://p3.publico.pt/actualidade/media/15226/nao-somos-todos-charlie

Não, não foi um pesadelo. Houve mesmo umassassinato em série numa redacção de um jornal satírico que fez uns rabiscos de um profeta muçulmano. Doze mortos, entre os quais quatro dos cartoonistas mais importantes de França e da Europa. Doze mortos que fazem com que as redes sociais se encham da cor negra. Doze pessoas cujas mortes chocaram e sensibilizaram milhões de pessoas. Três homens entram por uma redacção adentro e disparam criteriosamente sobre os heróis jornalistas, que tanto e tão bem nos colocam perante um espelho límpido para que saibamos ver quão feios somos. Mas o “Charlie Hebdo” não é um jornal comum. Possui, isso sim, uma nobreza ainda maior na sua actividade e consequente função — ao fazer rir, desagrava os problemas, embora nunca os coloque de parte. Pelo contrário, coloca ênfase nas maiores problemáticas; provoca-nos uma gargalhada madrugadora, aligeirando, para de seguida nos mexer com a cabeça, fazendo-nos reflectir sobre os maiores problemas contemporâneos. Em Portugal, milhões compadecem-se. Mas, afinal de contas, seremos todos Charlie, neste rectângulo da Europa?

 

Parece-me que temos aqui um daqueles típicos casos de estrangeirofilia. Para muitos portugueses, há um encanto por o jornal “Charlie” ser francês – ou, deverei dizer?, por não ser português. No entanto, se o mesmo género de humor acontecesse por cá, no “Inimigo Público” ou noutra publicação do mesmo tipo, muitas mais seriam as vozes de apoio aos terroristas. Sim, porque houve vozes de apoio. Muitas. Demasiadas.

 

Um passeio de várias horas pelas caixas de comentários dos sites noticiosos ou de simples anónimos no Facebook demonstra-nos uma realidade arrepiante: ainda vivemos no meio de brutos que não acham nada mal que uns tresloucados de “kalashnikovs” em riste assassinem a sangue frio umas quantas pessoas em nome de uma crença visceral. Um exemplo ilustrativo: Gustavo Santos, auto-proclamado “guru de desenvolvimento pessoal”, escreveu isto na sua página de Facebook: “Liberdade de expressão é uma coisa, desrespeito gratuito e egóico pelas mais altas crenças dos outros, sejam elas quais forem, é outra. Infelizmente, um e outro ponto colidiram hoje. Que uns sejam apanhados e severamente julgados pelo que fizeram e que outros, os que tiveram sorte e ficaram, assim como tantos outros que fazem carreiras a ridicularizar a verdade de quem não conhecem de lado nenhum, aprendam alguma coisa com isto! Opinar sim, questionar também, agora gozar sistematicamente com convicções alheias é que me parece despropositado. Além disso, sempre que desrespeitamos alguém desta forma, estamos a trazer uma potencial ameaça para a nossa vida!”

 

De acordo com a sua teoria, caro Gustavo, um louco teria toda a legitimidade para lhe assentar com um barrote cheio de cavilhas num pézinho apenas por não concordar consigo, movido por uma alta crença no planeta Zog, onde vivem os totós. A título de curiosidade: à hora em que este texto era escrito, mais de mil almas achavam que Gustavo era dono e senhor da razão. A bem da fé na Humanidade, é positivo observar que muitos milhares, entre os quais me incluo, acham-no um parvo com o dom da fala.

 

Também há espaço para os hipócritas. Rui Sinel de Cordes, humorista que tem alargado de forma louvável as fronteiras da liberdade do humor, desmascarou-os: “Quase tão agoniante como o atentado de Paris, é ter passado um dia inteiro a ver e ouvir certos humoristas, produtores, directores de programação, editores criativos e outros agentes artísticos a dizerem que ‘são o Charlie’. Humoristas que afirmam que gostam de humor negro mas que fazem outro porque dizem que dá mais dinheiro e menos problemas. Produtores que estão ao serviço de grandes marcas e censuram estilos e temáticas. Directores que me dizem que gostam de mim mas que não me podem contratar por temerem as reacções do público acéfalo. Editores criativos que me pedem humor ‘que não ofenda ninguém’. E outros agentes artísticos que bloqueiam a minha entrada em salas de Teatro e de outros colegas como eu, porque o nosso ‘stand-up’ não é ‘clean’.”

 

A liberdade de expressão não se dissocia da liberdade humorística. Se algumas pessoas fizessem dos livros de História mais do que enfeites de prateleiras, talvez soubessem que a Revolução Francesa teve o condão de nos humanizar e que a época em que se queimava gente em fogueiras já lá vai. Infelizmente, há iletrados que julgam o contrário. Ainda assim, e por muita legitimidade que pudesse ter, nunca lhes desejarei a morte.