Para que serve a escola pública?


Para que serve a escola pública?

Ponderei muito antes de começar a escrever este texto. Se havia de fazer pontos prévios, notas de rodapé e outros afins. Como havia de começar e por onde. Por si só, o tempo que dediquei a estruturar mentalmente a peça é já um atestado claro da importância do ensino público.

Posto isto, decidi ir direta ao assunto, começando por dizer que sempre frequentei o ensino público, sem quaisquer dores ou penas.

Costumo dizer que a escola apenas me ensinou três coisas úteis, sendo as duas primeiras a ler e a escrever. Tudo o resto, aprendi mais com os documentários da BBC selvagem e com as revistas do National  Geographic. Não quero desencorajar ninguém, mas esta foi a minha experiência. Ninguém me destratou, não fui vítima de bulling, nada. Simplesmente, não via grande utilidade naquilo. Nem saudades.

E como o Herman José costuma dizer, recorri à minha memória de motel para passar sempre de ano: a informação chegava, ficava os dias estritamente necessários e depois ia-se embora.

No entanto, a terceira coisa útil que a escola pública me ensinou não tem preço, de tão valiosa que é. E à altura, não existia escola do ensino privado que ensinasse, facto que comprovei facilmente ao longo dos 12 anos de escolaridade que fiz: que existiam muitas pessoas diferentes.

No final da minha carreira escolar tive a oportunidade de conviver com novos colegas que, fruto da pouca diversidade de oferta no ensino privado, se viam obrigados (e era assim que muitos se sentiam) a mudar para o público de forma a terem a opção académica que lhes dava acesso ao superior. E percebi como estavam longe da realidade.

Ao contrário de mim e dos restantes que sempre tinham frequentado o público, eles não estavam habituados – e mais grave, quase não acreditavam que existiam – a conviver com colegas que moravam em bairros de barracas e apanhavam dois autocarros ou andavam uma hora a pé chegar à escola. Nunca tinham tido colegas africanos, indianos e até chineses, mais raros então em Portugal.

Estranhavam como os filhos de doutores, funcionários públicos, professores e empregados do comércio e dos serviços (que também os havia no ensino público, felizmente!) conviviam tão amenamente com outros tão diferentes, eles que apenas socializavam entre iguais.

A sensação de ser possuidora de um conhecimento social e cultural tão vasto e valioso desde a primária fez de mim aquilo que eu sou hoje, com uma conduta social da qual me orgulho, pese embora reconheça nunca me tenha servido para nada.

O ensino público mostrou-me, de perto e ao vivo, que existem muitos mundos para além da tacanhez da nossa porta no nosso prédio na nossa rua. Que existem muitas formas de olhar para a vida e de a viver. Muitas maneiras de rezar, muitas mais de nomear os deuses. Inúmeros modos de cozinhar o mesmo alimento e alimentos muito diferentes. Músicas que primeiro se estranham e depois se entranham. Literaturas diversas e línguas variadas.

Enfim, poderia continuar até ao infinito (como se chega lá?).

O certo é que o ensino público tem hoje uma diversidade social e cultural ainda mais inestimável e que, mesmo com as transformações económicas dos últimos anos, dificilmente será igualado pelo privado. E mais que aprender a fazer equações, a descascar a Mãe-Terra desde o núcleo até à crosta, a misturar elementos químicos ou a falar uma língua estrangeira, o ensino público ensina o ser humano a ser exatamente aquilo que ele deve ser: uma criatura civilizada social e culturalmente.

 

Agora uns pontos que deveriam ter sido prévios e que se transformaram em notas de rodapé:

  1. Não tenho nada contra o ensino privado e entendo muito bem as suas vantagens de ordem prática.
  2. Uns dias depois do ministro da Educação dizer que há professores a mais, já conheço um caso de uma turma que, iniciando as aulas na sexta-feira, não tem ainda professor de Ciências da Natureza.
  3. Continuo sem entender o processo de colocação de professores e tenho a absoluta certeza que o problema não é meu, pois sei ter inteligência de sobra. Logo, é porque quem o estrutura é burro.
  4. Na minha infância, um dos nossos grandes heróis era um professor. Do ensino público. Que enchia salas com crianças ansiosas por ouvirem as suas histórias cantadas. É o fungagá…

 

 

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