Um 1.º de Maio entre os chimpanzés


Um 1.º de Maio entre os chimpanzés

 

Ontem, ao assistir à abertura dos principais blocos informativos das televisões portuguesas (um ritual que não dispenso, nem que seja para ao fim de 15 segundos optar por mudar para o Panda) julguei estar a assistir em directo a um documentário do National Geographic mostrando um alargado bando de chimpanzés a disputar à chapada um magro cacho de bananas.

Mas estava enganada. Teria sido bastante mais instrutivo e incomensuravelmente mais agradável assistir à gritaria dos nossos parentes mais próximos, mas a realidade é que se tratava de uma manada de humanos completamente descontrolados. E não, não estavam em nenhuma manifestação do Dia do Trabalhador, não estavam a defender uma qualquer vítima indefesa, não estavam a fugir de um tsunami, não estavam a saltar a fronteira na esperança de escapar a uma guerra iminente. Não. Estavam num supermercado que resolveu aproveitar o Dia do Trabalhador para não dar folga aos seus trabalhadores e para fazer uma promoção que parecia, em tudo, de se aproveitar.

Realmente, a cadeia de supermercados prometia – e acredito que tenha cumprido – que as compras feitas num valor superior de 100 euros teriam um desconto de 50 por cento. Parecia uma boa ideia, mas, à semelhança do que já sucedeu noutras ocasiões, acabou por se transformar em horas de espera à porta do estabelecimento, no roubo de carrinhos de supermercados de outras cadeias, na vandalização de prateleiras e nas chapadas tão características dos primatas. Que somos, quer queiram, quer não, defendam lá o que defenderem. Se dúvidas houvesse, ontem foram desfeitas. Tratava-se de primatas que se julgam civilizados e superiores, mas que, afinal, só têm uma ou outra pequena diferença da restante parentela: tomam banho em vez de se catarem e têm menos pelo, por isso usam vestes.

Excepção feita aos desgraçados dos agentes da autoridade que, exercendo o papel de tratadores do zoo, procuraram apartar as manadas em fúria, evitando assim eventuais ferimentos devido a pacotes de esparguete ou a sacas de batatas.

Quanto aos que argumentam que se tratou do aproveitamento da pobreza alheia, embora entenda o argumento e o que o motiva (o para aí não falta é gente sempre disposta a tirar partido da desgraça dos outros), o facto é que os pobres não têm 50 euros para irem ao supermercado quando querem.

Muitos compraram não porque dava jeito encher a despensa a preços mais baratos (veremos mais à frente que assim não foi, pelo menos, nalguns casos), mas para revenderem depois em pequenos estabelecimentos.

Os criativos que desenvolveram esta campanha de marketing são, de facto, muito bons. Não só conseguiram aumentar as vendas e, consequentemente, os lucros do supermercado, como obtiveram aquilo que todas as empresas ambicionam: publicidade gratuita no meio de comunicação onde ela é mais cara. E também mais eficaz. Afinal, os anúncios publicitários que antecedem a abertura dos principais blocos informativos em televisão pagam os seus preciosos minuto e meio a preço de petróleo. Mas pagam e, como tal, têm todo o direito de utilizar o tempo para promover os seus produtos ou serviços.

Ontem, a cadeia de supermercados em questão teve tempo de antena alargado – alargadíssimo – de forma gratuita, sob a forma de reportagens em directo. E continua a ter, hoje na imprensa escrita e nos milhares de posts a propósito do “acontecimento” de ontem e que recorrem não apenas ao nome da marca mas ao logotipo e às cores e ao letterring, facilmente reconhecíveis. Não é isto também concorrência desleal? Porque é que não fazem o mesmo com este blogue?

A propósito de concorrência desleal, muito se falou que esta campanha terá configurado a prática de dumping, já que diversos foram os especialistas a referir o facto de só ser possível desenvolver uma promoção como esta vendendo os artigos abaixo do preço de custo. No calor do momento, pareceu-me um raciocínio correcto. No entanto, mais tarde duvidei que tal tivesse sido possível em Portugal: são raros os empresários nacionais que entendem que muitas vezes é necessário concretizar dois negócios em que se perde dinheiro para poder efectuar um terceiro que renda um lucro substancial e que fidelize o cliente.

No mundo real, e tal como perceberam pouco dos ingénuos que esperaram horas para aproveitar a promoção, alguns dos produtos adquiridos estavam ontem cerca de 30 cêntimos mais caros que no dia 30 de Abril. Ou seja, os clientes não só não usufruíram de uma promoção como ainda pagaram alguns dos artigos a um preço superior ao habitual. Já lá diz o povo que quando a esmola é muita, o santo desconfia…

 

Anúncios

7 thoughts on “Um 1.º de Maio entre os chimpanzés

    • Farei por isso, João Lopes! Continue a visitar o meu castelo sempre que quiser. A ponte levadiça estará para baixo para o receber!

  1. Concordo com a sua visão sobre o que acontefeu no PD mas acho ofensivo comprara-nos aos macacos. gostaria que alguém lhe chamasse macaca? é abusivo e faz com que perca a rasão.

    • Obrigada por investir o seu tempo a ler os meus posts.
      Não me sentiria ofendida por ser chamada “macaca” até porque já fui chamada de coisas bastante mais insultuosas. E não creio que comprara a espécie humana aos seus parentes mais próximos me faça perder a razão. Tratam-se de seres vivos que diferem de nós apenas na biologia e não no respeito que nos merecem.
      Gosto da sua audácia na escolha do nickname. Eu não teria coragem de me auto-intitular “God’s Angel”.

  2. o meu diminuitivo é aprop riado à minha forma de estrar na vida. já percebi que não acredita em Deus. quanto aos macacos, eu8 sinto-me insultada por ver os seres humanos como descendentes dos macacos. se a si não lhe fa diferença, não genera<lize

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s