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Bernardo Sassetti


Bernardo Sassetti

Numa entrevista a Maria João Seixas, Bernardo Sassetti descrevia-se como «um terrestre que caminha de uma forma muito aérea, muito suspensa, à procura de qualquer coisa, sobretudo na música, que ainda não sabe muito bem o que é».

«E isso inquieta-me o espírito. Sempre. Vivo com esta inquietação vinte e quatro horas por dia», afirmou na altura o músico.

Um 1.º de Maio entre os chimpanzés


Um 1.º de Maio entre os chimpanzés

 

Ontem, ao assistir à abertura dos principais blocos informativos das televisões portuguesas (um ritual que não dispenso, nem que seja para ao fim de 15 segundos optar por mudar para o Panda) julguei estar a assistir em directo a um documentário do National Geographic mostrando um alargado bando de chimpanzés a disputar à chapada um magro cacho de bananas.

Mas estava enganada. Teria sido bastante mais instrutivo e incomensuravelmente mais agradável assistir à gritaria dos nossos parentes mais próximos, mas a realidade é que se tratava de uma manada de humanos completamente descontrolados. E não, não estavam em nenhuma manifestação do Dia do Trabalhador, não estavam a defender uma qualquer vítima indefesa, não estavam a fugir de um tsunami, não estavam a saltar a fronteira na esperança de escapar a uma guerra iminente. Não. Estavam num supermercado que resolveu aproveitar o Dia do Trabalhador para não dar folga aos seus trabalhadores e para fazer uma promoção que parecia, em tudo, de se aproveitar.

Realmente, a cadeia de supermercados prometia – e acredito que tenha cumprido – que as compras feitas num valor superior de 100 euros teriam um desconto de 50 por cento. Parecia uma boa ideia, mas, à semelhança do que já sucedeu noutras ocasiões, acabou por se transformar em horas de espera à porta do estabelecimento, no roubo de carrinhos de supermercados de outras cadeias, na vandalização de prateleiras e nas chapadas tão características dos primatas. Que somos, quer queiram, quer não, defendam lá o que defenderem. Se dúvidas houvesse, ontem foram desfeitas. Tratava-se de primatas que se julgam civilizados e superiores, mas que, afinal, só têm uma ou outra pequena diferença da restante parentela: tomam banho em vez de se catarem e têm menos pelo, por isso usam vestes.

Excepção feita aos desgraçados dos agentes da autoridade que, exercendo o papel de tratadores do zoo, procuraram apartar as manadas em fúria, evitando assim eventuais ferimentos devido a pacotes de esparguete ou a sacas de batatas.

Quanto aos que argumentam que se tratou do aproveitamento da pobreza alheia, embora entenda o argumento e o que o motiva (o para aí não falta é gente sempre disposta a tirar partido da desgraça dos outros), o facto é que os pobres não têm 50 euros para irem ao supermercado quando querem.

Muitos compraram não porque dava jeito encher a despensa a preços mais baratos (veremos mais à frente que assim não foi, pelo menos, nalguns casos), mas para revenderem depois em pequenos estabelecimentos.

Os criativos que desenvolveram esta campanha de marketing são, de facto, muito bons. Não só conseguiram aumentar as vendas e, consequentemente, os lucros do supermercado, como obtiveram aquilo que todas as empresas ambicionam: publicidade gratuita no meio de comunicação onde ela é mais cara. E também mais eficaz. Afinal, os anúncios publicitários que antecedem a abertura dos principais blocos informativos em televisão pagam os seus preciosos minuto e meio a preço de petróleo. Mas pagam e, como tal, têm todo o direito de utilizar o tempo para promover os seus produtos ou serviços.

Ontem, a cadeia de supermercados em questão teve tempo de antena alargado – alargadíssimo – de forma gratuita, sob a forma de reportagens em directo. E continua a ter, hoje na imprensa escrita e nos milhares de posts a propósito do “acontecimento” de ontem e que recorrem não apenas ao nome da marca mas ao logotipo e às cores e ao letterring, facilmente reconhecíveis. Não é isto também concorrência desleal? Porque é que não fazem o mesmo com este blogue?

A propósito de concorrência desleal, muito se falou que esta campanha terá configurado a prática de dumping, já que diversos foram os especialistas a referir o facto de só ser possível desenvolver uma promoção como esta vendendo os artigos abaixo do preço de custo. No calor do momento, pareceu-me um raciocínio correcto. No entanto, mais tarde duvidei que tal tivesse sido possível em Portugal: são raros os empresários nacionais que entendem que muitas vezes é necessário concretizar dois negócios em que se perde dinheiro para poder efectuar um terceiro que renda um lucro substancial e que fidelize o cliente.

No mundo real, e tal como perceberam pouco dos ingénuos que esperaram horas para aproveitar a promoção, alguns dos produtos adquiridos estavam ontem cerca de 30 cêntimos mais caros que no dia 30 de Abril. Ou seja, os clientes não só não usufruíram de uma promoção como ainda pagaram alguns dos artigos a um preço superior ao habitual. Já lá diz o povo que quando a esmola é muita, o santo desconfia…

 

DogTV


DogTV

Melro

Os norte-americanos, sempre na vanguarda do que o público quer em matéria de televisão, inauguraram recentemente as emissões daquilo que se anuncia como a maior revolução em TV desde a MTV.

O novo canal, que está já a causar sensação, chama-se DogTV e é exclusivamente dedicado aos melhores amigos do homem, os cães. Para quando um canal dedicado aos melhores amigos das mulheres, os diamantes? E não estejam todas a fazer esse ar de falsas moralistas, porque todas vocês gostariam de ter um. Mais que não fosse, para o venderem e poderem ir de férias.

De volta ao DogTV.

Segundo os seus criadores, o novo canal foi concebido tendo em conta apenas as necessidades e os interesses dos nossos fiéis amigos de quatro patas – não que nós não tenhamos também quatro patas, só não gostamos de o admitir -, desde a programação até às técnicas de filmagem utilizadas.

Assim, da programação constam momentos tão estimulantes como passeios com os humanos e correrias e tropelias com outros amigos, tudo ao ar livre porque a actividade física no meio natural é fundamental para a saúde destes animais. Não poderia estar mais de acordo.

Os programas são gravados considerando as especificidades biológicas dos caninos: os operadores de câmara filmam sempre de joelhos para que a imagem tenha uma perspectiva aproximada do campo de visão do animal. A cor foi outra das preocupações dos inventores deste canal: os cães vêem o mundo com outras cores, menos intensas e menos diversificadas das do olho humano, pelo que a imagem dos programas do DogTV são em, digamos, tons mais suaves.

Posto isto, apresento uma reclamação.

Não tenho, infelizmente, um cão como animal de companhia, por razões económico-financeiro-logísticas. Por isso, quero um canal dedicado a gatos, com realilty shows  cheios de ratos ninfomaníacos, outro a periquitos, com programas dedicados às complexidades da cultura da alpista, e um terceiro a tartarugas, com anúncios institucionais sobre as formas mais eficazes de voltarem à sua posição normal depois de ficarem de carapaça para baixo.

Pensando bem, não quero nada disto, tal como não quereria um canal dedicado ao meu cão, se o tivesse.

Afinal, eu gosto dos meus animais de companhia o suficiente para não querer que eles se transformem em humanos com formas físicas diferentes.

Quem gostaria de ver o seu cão, o seu gato ou a sua tarântula estupidificados no sofá a comer fast food em frente ao televisor? Eu não. Para isso, arranjo um humano de estimação.