Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão


Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão

Nota prévia número 1: no decorrer do texto vão encontrar diversas citações, um facto que facilita muito o escrevinhar de um artigo mas que revela, na maior parte das vezes, a incapacidade intelectual do escrevinhador ou a sua falta de aptidão para manobrar/manipular o vasto vocabulário que constitui a língua portuguesa.

No meu caso, é uma opção temporária. Hoje apetece-me dar férias à minha inteligência e deixar-me envolver pela estupidez. Estupidez e não burrice, pois os burros são aqueles que têm dificuldades de aprendizagem e não os que podem aprender mas não querem porque dá muito trabalho.

Nota prévia número 2: este texto vai parecer-vos uma enorme salganhada, mas há dias assim. Dias em que nos apetece ser o personagem principal daquele filme norte-americano “Dia de Raiva” e disparar sobre tudo e sobre todos.

Nota prévia número 3: viram como o ministro das Finanças tem tanta desenvoltura a falar inglês? Será que a língua de Shakespeare lhe permite outro ritmo aos músculos da boca? Talvez ele devesse passar a falar sempre em inglês. Assim podia ser que alguém tivesse paciência para o ouvir até ao fim.

É este o País que quero para mim e para todos os outros que vêm atrás e irão, pelo andar desta carruagem, apagar a luz? Sim, porque apesar de não ter descendentes directos, ainda acredito que cria uma criança é a aldeia inteira e por isso preocupa-me o que vamos deixar aqueles a quem gostamos de chamar de “homens do amanhã”.

Um país que me imprime na mente, a ferro e fogo, uma imagem diária dos nossos avós a terem que decidir se compram os medicamentos ou se enchem a despensa?

Um país que me imprime na mente, a ferro e fogo, uma imagem diária dos hospitais públicos a terem que dar os medicamentos mais baratos aos doentes oncológicos?

Um país que me imprime na mente, a ferro e fogo, uma imagem diária de milhares de estudantes universitários a abandonarem as suas carreiras académicas por não terem dinheiro?

Um país que me imprime na mente, a ferro e fogo, uma imagem diária de um sem número de residentes no interior profundo ficarem sem o necessário (e o constitucionalmente garantido direito) à justiça?

Um país que me imprime na mente, a ferro e fogo, uma imagem diária de 25 estabelecimentos de restauração a fecharem portas todos os dias?

Um país que me imprime na mente, a ferro e fogo, uma imagem diária de encerramento forçado de projectos sociais de iniciativa particular acarinhados pelas populações mais desfavorecidas?

Um país que me imprime na mente, a ferro e fogo, uma imagem diária de centenas de milhares de trabalhadores que, acreditando estar a defender os direitos, estão apenas a ser manipulados pelos interesses partidários dos sindicatos?

Um país que me imprime na mente, a ferro e fogo, uma imagem diária de se ser velho aos 36 e quatro meses para trabalhar, ao mesmo tempo que não se pode reformar antes dos 65 anos?

Um país que me imprime na mente, a ferro e fogo, uma imagem diária de vítimas de crimes terem que fugir para se manterem a salvo enquanto o criminoso cumpre a sua pena suspensa no conforto do lar?

A população portuguesa, como qualquer outra, não é perfeita e também não é isenta de culpas no que respeita à situação catastrófica a que o País chegou.

Ainda não conseguiram deixar de parte a ideia que o Estado, Deus ou qualquer outra entidade não palpável é que tem a responsabilidade de resolver tudo. Deita o lixo para o chão ao lado da papeleira porque paga impostos para os empregados da Câmara limparem a rua.

Recusa-se a limpar o matagal que cresceu em redor da sua habitação porque o vizinho também não o faz. Não deixa de fazer fogueiras na mata durante o Verão, mas quer receber uma indemnização quando os incêndios florestais lhe consomem os bens.

Quando alguém se salva de uma desgraça, não foi graças à pronta actuação das forças de emergência, mas sim à Nossa Senhora.

Diz o pior possível dos Governos, mas não faz uso da sua maior arma para lhes mostrar quem realmente tem a faca e o queijo na mão: não levanta o rabo do sofá para ir votar numa escola a 200 metros de casa. Mas veste o seu melhor fato de treino para viajar dez quilómetros até ao centro comercial.

Não somos perfeitos, de facto.

Sobretudo, porque, como nós próprios dizemos, o pior cego é aquele que não quer ver.

Portanto, está na hora de abrir os olhos.

Está na hora de não deixar que as transportadoras de passageiros continuem a alterar as carreiras, os percursos e os horários a seu bel-prazer – traduzindo, para criar novos mercados para as congéneres privadas, notoriamente mais caras – literalmente, do dia para a noite, sem qualquer aviso aos utentes. Continuem a fazer figura de parvos quando, na manhã do dia seguinte, forem para a paragem habitual e perceberem, ao fim de uma hora, que o autocarro que apanham todos os dias deixou de passar por ali. No dia anterior. À noite. Aproximadamente uma semana depois, vão poder consultar os indicadores dos novos percursos nas paragens. Nas novas, naturalmente.

De não deixar que as ilustres cabeças dos membros da classe política – e também de alguns candidatos a aprendiz de feiticeiro – continuem a tratar-vos como se fossem uma manada de preguiçosos encostados à sombra da bananeira à espera que o dinheiro caia do céu. Isto quando vocês de levantam às cinco da matina para apanharem o barco e três autocarros para o trabalho que é pago a recibos verdes – mais uma singularidade portuguesa que devia ser reconhecida como Património Mundial – por três euros à hora. Parece que o tal exército invisível, como alguém lhe chamava num recente reportagem da RTP1, não trabalha. Deixa os filhos na escola às seis da manhã e só os volta a ver às 11 da noite porque lhe apetece. E come latas de atum dia sim, dia sim porque é saudável, enquanto outros tomam refeições de luxo por dez euros. Na Assembleia da República.

De deixar que as cantinas escolares estejam abertas durante o período de férias académicas para que algumas crianças possam ter, ao menos, uma refeição diária completa.

De deixar que a classe política e os Governos insistam em nivelar o País e a sua força laboral com os países do Terceiro Mundo em lugar de apostarem no seu crescimento para poder competir com quem sabe o que faz. Nenhum de nós quer ver o País transformado na China ou na Índia da Europa. Queremos sim ser a nova Alemanha da Europa. Até a Natureza percebeu a diferença, ao abençoar-nos com um clima significativamente melhor que o alemão, o chinês ou o indiano. E muitos outros. Aproveitemos.

De deixar de ter um País de falsas elites que considera um juiz ou um médico um ser superior e de inteligência maior quando, na realidade, são tão cidadãos como os outros. Apenas tiveram a possibilidade de prosseguirem a sua carreira académica até ao topo, como tantos outros que não são elite e recorrem a uma linguagem hieroglífica para criarem a falsa ilusão que o seu QI é mais elevado. Hoje dia, os canalizadores e os electricistas e tantos outros como eles são as verdadeiras elites. Vão perceber do que falo quando precisarem dos serviços deles e não os conseguirem contratar.

Um dia destes ainda vou fazer como o norueguês idiota, o Breivick. Não, não vou planear matar o Governo e mais 500 pessoas, mostrando ao mundo a nova face do terrorismo. Tal como lembrava o comentador de assuntos criminais do programa da manhã da SIC, hoje em dia basta apenas (sim, eu sei que é uma repetição ou um pleonasmo ou talvez não) um homem para provocar uma desgraça tão grande como as que resultavam das pilhagens dos vikings.

Não. Vou assaltar um banco e usar a desculpa do idiota do norueguês (viking, por sinal), dizendo que foi em legítima defesa. Afinal, o banco roubou-me tanto dinheiro em taxas e em juros que eu apenas estou a usar a mesma moeda. Ou melhor dizendo: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.

Para terminar em beleza, e ao contrário do que tem sucedido até aqui, no mais vernáculo dos vernáculos: fuck them all. Pardon my french, como diriam os americanos. Não se ofendam, escolhi dizê-lo em inglês porque há mais buscas pela expressão anglo-saxónica do que pela portuguesa. Googlem.

P.S. – Last but not least, ou melhor, os últimos são sempre os primeiros: obrigado ao 25 de Abril de 1974 ou não poderia estar aqui a dissertar desta forma.

Na realidade, o mais provável é que estivesse a viver num qualquer bairro de lata nos arredores da capital, sem fazer a mais pequena ideia do que seria a internet. 

Ou a fazer um retiro espiritual (a melhor definição de prisão que já ouvi e que pertence a Otelo Saraiva de Carvalho) no Tarrafal ou a treinar aranhas em Caxias.

Ou quem sabe, com o mau feitio que me caracteriza (felizmente), estaria já a fazer tijolo sem que a família soubesse do meu paradeiro. 

E pensar que só vivi nesta “animação” durante os primeiros quatro anos da minha vida. E ainda para mais, não me lembro de nada. Mas faço toda a questão de não nunca me esquecer. Nem de deixar que ninguém se esqueça.

Até que a voz me doa.

Para aqueles que acham que isto no tempo da Outra Senhora é que era bom, sugiro-vos que emigrem para um destino feito à vossa medida e, convenientemente para mim e para os restantes que são demasiado inteligentes para conviverem com criaturas medievas, longínquo: a Coreia do Norte. Parece que é tão bom que nem sequer existe obesidade mórbida.

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