Os Doze de Inglaterra (Heróis Populares Portugueses 6)


Os Doze de Inglaterra

(Heróis Populares Portugueses 6)

"Os Doze de Inglaterra" - Fresco de Martins Barata

Os Doze de Inglaterra relata uma história na qual poucos conseguem determinar o que é lenda e o que é realidade. A história, cujo relato mais famoso é da autoria de Luís Vaz de Camões, terá acontecido no reinado de D. João I e assenta nos valores tradicionalmente associados à conduta da cavalaria medieval.

O relato, passado na Europa medieval, conta a ofensa feita a doze damas inglesas por doze nobres, também eles ingleses: os homens alegavam que elas não eram dignas de serem tratadas como “damas” uma vez que tinham uma conduta pouco consentânea com essa definição. Os nobres acrescentavam ainda que desafiariam quem quer que fosse para as defender com a força da espada.

As referidas damas pediram ajuda a amigos e parentes, embora sem nenhum sucesso. Em desespero, pediram a ajuda e os conselhos do Duque de Lencastre.  O Duque, que combatera ao lado dos portugueses contra o reino de Castela, recomendou-lhes doze cavaleiros lusitanos capazes de defender a honra das aflitas damas.

Os cavaleiros portugueses (treze e não doze) são, todos, personagens historicamente atestados: D. Álvaro Vaz de Almada (depois Conde de Avranches); Álvaro Gonçalves Coutinho, dito “o grão Magriço”; João Fernandes Pacheco; Lopo Fernandes Pacheco (Pai de Diogo Lopes Pacheco, um dos assassinos de D. Inês de Castro); Álvaro Mendes Cerveira; Rui Mendes Cerveira, também irmãos; João Pereira Agostim; Soeiro da Costa; Luís Gonçalves Malafaia; Martim Lopes de Azevedo; Pedro Homem da Costa; Rui Gomes da Silva e Vasco Anes da Costa, dito “Corte Real”.

Sir Jean Froissart , contemporâneo de D. João I e do Duque de Lencastre, escreveu sobre a estadia deste em Portugal, uma crónica onde é descrito o consentimento dado ao rei português pelo Duque britânico para o casamento daquele com a sua filha Filipa, que viria a ser Rainha de Portugal, D. Filipa de Lencastre. De igual forma, a crónica relata a realização de um torneio, em Londres, que opôs doze cavaleiros ingleses a doze estrangeiros que se quiseram defrontar com eles.

Assim que se inteiraram deste possível apoio dos lusitanos, cada uma das damas escreveu a cada um dos cavaleiros portugueses, bem como ao próprio rei D. João I. As cartas chegaram acompanhadas do redido do Duque de Lencastre.

O conteúdo das missivas deixou a corte ofendida, o que incentivou os cavaleiros a partirem de imediato para Inglaterra.

Onze dos cavaleiros terão seguido por mar, entre eles D. Álvaro Vaz de Almada. Contudo,  um deles, Álvaro Gonçalves Coutinho, conhecido como “O Magriço”, quis demonstrar maior valentia que os restantes, pelo que decidiu seguir no seu cavalo por terra para “conhecer terras e águas estranhas, várias gentes e leis e várias manhas”. Apesar da distância, assegurou que estaria presente no local e na data certos.

No entanto, quando chegou o dia do torneio marcado para lavar a honra das damas “o Magriço” não estava presente para desespero dos seus companheiros, que se viram assim reduzidos a onze cavaleiros contra os doze cavaleiros ingleses.

O torneio correu de mal a pior aos portugueses, deixando as damas desesperadas. No último minuto, já as damas trajavam de preto antevendo a derrota, “o Magriço” apareceu e o combate foi travado com glória para os portugueses que acabaram por sair vencedores do confronto.

Uma vez terminadas as contendas, os lusitanos foram recebidos pelo Duque de Lencastre no seu palácio, sendo homenageados com diversas festividades como prova de apreço e gratidão.

Em “Os Lusíadas”, Camões começa por se referir aos Doze de Inglaterra na estrofe 12 do Canto I, para depois desenvolver a história nas estrofes 42 a 69 do Canto VI, através da voz de Fernão Veloso, um marinheiro da frota de Vasco da Gama.

DO CANTO VI

42
Consentem nisto todos, e encomendam
A Veloso que conte isto que aprova.
Contarei, disse, sem que me repreendam
De contar coisa fabulosa, ou nova.
E por que os que me ouvirem daqui aprendam
A fazer feitos grandes de alta prova,
Dos nascidos direi na nossa terra,
E estes sejam os Doze de Inglaterra.

43
No tempo que do Reino a rédea leve,
João filho de Pedro moderava,
Depois que sossegado e livre o teve
Do vizinho poder que o molestava,
Lá na grande Inglaterra, que da neve
Boreal sempre abunda, semeava
A fera Erínis dura e má cizânia
Que lustre fosse a nossa Lusitânia.

44
Entre as damas gentis da corte Inglesa,
E nobres cortesãos, acaso um dia
Se levantou discórdia em ira acesa,
Ou foi opinião, ou foi porfia.
Os cortesãos a quem tão pouco pesa
Soltar palavras graves de ousadia,
Dizem que provarão, que honras e famas
Em tais damas não há, para ser damas.

45
E que se houver alguém, com lança e espada,
Que queira sustentar a parte sua,
Que eles em campo raso, ou estacada,
Lhe darão feia infâmia, ou morte crua.
A feminil fraqueza pouco usada,
Ou nunca a opróbrios tais, vendo-se nua
De forças naturais convenientes,
Socorro pede a amigos e parentes.

46
Mas como fossem grandes e possantes
No reino os inimigos, não se atrevem
Nem parentes, nem férvidos amantes,
A sustentar as damas, como devem.
Com lágrimas formosas e bastantes
A fazer que em socorro os Deuses levem
De todo o Céu, por rostos de alabastro
Se vão todas ao duque de Alencastro.

47
Era este Inglês potente, e militara
Cos Portugueses já contra Castela,
Onde as forças magnânimas provara
Dos companheiros, e benigna estrela.
Não menos nesta terra experimentara
Namorados afeitos, quando nela
A filha viu, que tanto o peito doma
Do forte Rei, que por mulher a toma.

48
Este que socorrer lhe não queria,
Por não causar discórdias intestinas
Lhe diz, quando o direito pretendia
Do Reino lá das terras Iberinas,
Nos Lusitanos vi tanta ousadia,
Tanto primor e partes tão divinas,
Que eles sós poderiam, se não erro
Sustentar vossa parte a fogo e ferro.

49
E se, agravadas damas, sois servidas,
Por vós lhe mandarei embaixadores,
Que, por cartas discretas e polidas,
De vosso agravo os façam sabedores.
Também por vossa parte encarecidas
Com palavras d’afagos e d’amores,
Lhe sejam vossas lágrimas, que eu creio
Que ali tereis socorro e forte esteio.

50
Destarte as aconselha o Duque experto,
E logo lhe nomeia doze fortes,
E por que cada dama um tenha certo,
Lhe manda que sobre eles lancem sortes,
Que elas só doze são; e descoberto
Qual a qual tem caído das consortes,
Cada uma escreve ao seu por vários modos,
E todas a seu Rei, e o Duque a todos.

51
Já chega a Portugal o mensageiro,
Toda a corte alvoroça a novidade,
Quisera o Rei sublime ser primeiro,
Mas não lho sofre a Régia Majestade.
Qualquer dos cortesãos aventureiro
Deseja ser, com férvida vontade,
E só fica por bem-aventurado,
Quem já vem pelo Duque nomeado.

52
Lá na leal cidade, donde teve
Origem (como é fama) o nome eterno
De Portugal, armar madeiro leve
Manda o que tem o leme do governo.
Apercebem se os doze, em tempo breve
D’armas, e roupas de uso mais moderno,
De elmos, cimeiras, letras e primores,
Cavalos, e concertos de mil cores.

53
Já do seu Rei tomado tem licença,
Para partir do Douro celebrado,
Aqueles que escolhidos por sentença
Foram do Duque Inglês experimentado.
Não há na companhia diferença
De cavaleiro, destro ou esforçado,
Mas um só, que Magriço se dizia,
Destarte fala à forte companhia:

54
Fortíssimos consócios, eu desejo
Há muito já de andar terras estranhas,
Por ver mais águas, que as do Douro e Tejo,
Várias gentes, e leis, e várias manhas.
Agora que aparelho certo vejo,
(Pois que do mundo as coisas são tamanhas)
Quero se me deixais, ir só por terra,
Porque eu serei convosco em Inglaterra.

55
E quando caso for que eu impedido
Por quem das coisas é última linha,
Não for convosco ao prazo instituído,
Pouca falta vos faz a falta minha.
Todos por mim fareis o que é devido,
Mas se a verdade o espírito me adivinha,
Rios, montes, fortuna, ou sua inveja,
Não farão que eu convosco lá não seja.

56
Assim diz e abraçados os amigos
E tomada licença, enfim se parte.
Passa Leão, Castela vendo antigos
Lugares que ganhara o pátrio Marte.
Navarra, cos altíssimos perigos
Do Pireneu, que Espanha e Gália parte.
Vistas enfim de França as coisas grandes,
No grande império foi parar de Frandes.

57
Ali chegado, ou fosse caso, ou manha,
Sem passar se deteve muitos dias.
Mas dos onze a ilustríssima companha
Cortam do mar do Norte as ondas frias.
Chegados de Inglaterra à costa estranha,
Para Londres já fazem todos vias.
Do Duque são com festa agasalhados,
E das damas servidos, e amimados.

58
Chega-se o prazo, e dia assinalado
De entrar em campo já cos doze Ingleses,
Que pelo Rei já tinham segurado.
Armam-se d’elmos, grevas, e de arneses,
Já as damas têm por si, fulgente e armado,
O Mavorte feroz dos Portugueses.
Vestem-se elas de cores e de sedas,
De ouro, e de jóias mil, ricas e ledas.

59
Mas aquela a quem fora em sorte dado
Magriço, que não vinha, com tristeza
Se veste, por não ter quem nomeado
Seja seu cavaleiro, nesta empresa.
Bem que os onze apregoam, que acabado
Será o negócio assim na corte Inglesa,
Que as damas vencedoras se conheçam,
Posto que dois e três dos seus faleçam.

60
Já num sublime e público teatro
Se assenta o Rei Inglês com toda a corte.
Estavam três e três, e quatro e quatro,
Bem como a cada qual coubera em sorte.
Não são vistos do Sol do Tejo ao Batro,
De força, esforço e d’ânimo mais forte,
Outros doze sair, como os Ingleses,
No campo, contra os onze Portugueses.

61
Mastigam os cavalos, escumando,
Os áureos freios, com feroz semblante.
Estava o Sol nas armas rutilando,
Como em cristal, ou rígido diamante,
Mas enxerga-se num e noutro bando
Partido desigual e dissonante
Dos onze contra os doze, quando a gente
Começa a alvoroçar se geralmente.

62
Viram todos o rosto aonde havia
A causa principal do reboliço,
Eis entra um cavaleiro, que trazia
Armas, cavalo, ao bélico serviço.
Ao Rei e às Damas fala, e logo se ia
Para os onze, que este era o grão Magriço,
Abraça os companheiros como amigos,
A quem não falta, certo nos perigos.

63
A dama como ouviu, que este era aquele,
Que vinha a defender seu nome, e fama,
Se alegra, e veste ali do animal de Hele,
Que a gente bruta mais que virtude ama.
Já dão sinal, e o som da tuba impele
Os belicosos ânimos, que inflama,
Picam d’esporas, largam rédeas logo
Abaixam lanças, fere a terra fogo.

64
Dos cavalos o estrépito parece
Que faz que o chão debaixo todo treme,
O coração no peito, que estremece
De quem os olha, se alvoroça, e teme.
Qual do cavalo voa, que não dece,
Qual co cavalo em terra dando, geme,
Qual vermelhas as armas faz de brancas,
Qual cos penachos do elmo açoita as ancas.

65
Algum dali tomou perpétuo sono,
E fez da vida ao fim breve intervalo,
Correndo algum cavalo vai sem dono,
E noutra parte o dono sem cavalo.
Cai a soberba Inglesa de seu trono,
Que dois ou três já fora vão do valo.
Os que de espada vêm fazer batalha,
Mais acham já que arnês, escudo, e malha.

66
Gastar palavras em contar extremos
De golpes feros, cruas estocadas,
É desses gastadores, que sabemos,
Maus do tempo, com fábulas sonhadas.
Basta por fim do caso, que entendemos
Que com finezas altas e afamadas,
Cos nossos fica a palma da vitória,
E as damas vencedoras e com glória.

67
Recolhe o Duque os doze vencedores
Nos seus paços, com festas e alegria,
Cozinheiros ocupa e caçadores
Das damas a formosa companhia,
Que querem dar aos seus libertadores
Banquetes mil, cada hora e cada dia,
Enquanto se detêm em Inglaterra,
Até tornar à doce e cara terra.

68
Mas dizem que, contudo o grão Magriço,
Desejoso de ver as coisas grandes,
Lá se deixou ficar, onde um serviço
Notável à condessa fez de Frandes.
E como quem não era já noviço
Em todo transe, onde tu, Marte, mandes,
Um Francês mata em campo, que o destino
Lá teve de Torcato e de Corvino.

69
Outro também dos doze em Alemanha
Se lança, e teve um fero desafio,
Cum Germano enganoso, que com manha
Não devida o quis pôr no extremo fio.
Contando assim Veloso, já a companha
Lhe pede que não faça tal desvio
Do caso de Magriço e vencimento
Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.

 

 

 

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