A busca da felicidade será um crime no futuro?


A busca da felicidade será um crime no futuro?

 

Se a situação sociocultural portuguesa continuar como está, como será o futuro da geração agora baptizada de à rasca?

E o futuro dos seus filhos, se os tiver?

Para aqueles que, como eu, fazem parte da geração rasca (rasca mas que tem servido para contribuir sem que veja os resultados inerentes a tal), as decisões políticas dos últimos 20 anos obrigaram esta rapaziada de agora a dar um salto para trás. Ou melhor, dois saltos para trás, numa verdadeira viagem no tempo sem ser necessária uma qualquer engenhoca de Júlio Verne.

Os jovens de hoje têm mais dificuldade em seguir a sua vida como adultos do que tiveram os progenitores da minha geração.

É um facto que, quer a minha geração, quer a dos meus pais, cometeram o crime de sonhar que a vida podia ser melhor, deixando-se embalar por uma doce ilusão. Também é verdade que estas duas gerações quiseram facilitar a vida das suas crias, poupá-las a alguma da crueza que ela encerra. Mas, francamente, se foi a minha geração e a anterior que errou, porquê sentenciar os mais novos a uma pena tão pesada por um crime que eles não cometeram?

Eu não tenho filhos e sou bastas vezes criticada e acusada por aqueles que os têm de me meter onde não sou chamada, de não perceber nada do assunto e de não ter o direito de me preocupar com os filhos dos outros.

Mas como eu ainda vivo na Idade Média, como nasci e cresci no meio de uma tribo isolada, fui educada a acreditar que é precisa uma aldeia inteira para criar uma criança. Portanto, preocupo-me com os filhos dos outros sim, quer queiram, quer não.


Preocupo-me que tenham que ser obrigados a estudarem o que não querem só porque a sua verdadeira vocação sai muito cara ao erário público.

Preocupo-me que sejam empurrados para fora do País os cérebros e as almas melhor preparadas da já longa história deste velho Portugal, enriquecendo outras nações e empobrecendo a nossa.

Preocupo-me que sejam obrigados a trabalhar naquilo que não querem, não como um degrau que se sobe numa carreira profissional, mas sim como um passo em frente para um abismo eterno.

Preocupo-me que se deite fora o verdadeiro valor acrescentado que qualquer nação que se preze deseja ter como quem, distraidamente, atira uma beata para o chão e a pisa.

Preocupo-me que as empresas capazes queiram um dia contratar um funcionário competente que existe dentro de uma pessoa feliz e não o possa fazer porque tal criatura não existe.

Preocupo-me que não permitamos a esta geração ter a oportunidade de tentar ser feliz, como se isso fosse um crime apenas comparável ao genocídio.

Preocupo-me que os estejamos a condenar a não poder ter um plano de vida digno da condição humana, com um trabalho e família próprios, mesmo que muito diversos dos nossos e muito à sua maneira.

Preocupo-me que, depois de impormos à nossa geração uma política do filho único, estejamos a sentenciá-los a um mundo de homens e mulheres sós, que irão amadurecer ainda mais sós, envelhecer na mais completa solidão e morrer na certeza que ficarão muito poucos depois deles.

Será que, secretamente, as gerações anteriores à geração à rasca padecem da síndrome do sargento e querem infligir aos jovens de hoje todas as sevícias a que elas próprias foram sujeitas?

Preocupo-me que os estejamos a empurrar para uma vivência de zombies que passam ao lado da vida executando ordens repetitivas de forma mecanizada, sob o efeito de uma droga para se levantarem e outra para se deitarem e, sobretudo, uma terceira para não sentirem. Será a busca da felicidade um crime assim tão abominável?

Talvez não cheguem a isso. Talvez sucumbam antes às doenças que a infelicidade produz em todos os seres vivos. Talvez seja nesta geração que a síndrome do coração partido (googlem, que não me apetece contar-vos tudo o que sei) vai ultrapassar os cancros e as enfermidades cardiovasculares como principal causa do suspiro final.

Enfim, preocupo-me. Quer queiram, quer não, gostem ou não gostem, preocupo-me que os filhos dos outros tenham que navegar pela vida como se estivessem a ser constantemente levados para longe de terra firme. Preocupo-me que, para além de terem de sobreviver a algumas das torturas que a minha geração tem sofrido, tenham ainda que resistir a outras piores.

No entanto, já mostrámos que, quando é preciso, transformamos o conflito de gerações num castelo no ar e ficamos todos do mesmo lado em prol das gerações futuras.

Apesar de tudo, lá no fundo, lá bem no fundo do meu ser há uma pequena criaturinha que, de quando em vez, acende uma velinha cuja luz ténue deixa antever que podemos não estar no fim do caminho, mas sim numa encruzilhada.

Resta saber se, tomada a decisão sobre que caminho seguir, seremos capazes de impedir aqueles para quem a felicidade, sobretudo a alheia, é o pior dos crimes.

 

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