Solstício de Inverno


Solstício de Inverno

O solstício de Inverno, ou Yule, como é conhecido nas tradições do Norte da Europa,  é a noite mais longa do ano.

A  palavra Yule (deve pronunciar-se “iúle”) tem origem no escandinavo “iul”, ou seja, a “roda”.

Segundo a mitologia nórdica, este dia marca a morte e o renascimento do Deus-Sol, bem como a derrota do Rei Azevinho, Deus do Ano Minguante, pelo Rei Carvalho, Deus do Ano Crescente.  Os mitos correspondentes a este dia do ano contemplam ainda uma Deusa, que era morte-em-vida no momento do solstício de Verão e exibe agora o seu aspecto de vida-em-morte. Trata-se da Rainha da Escuridão, mas também da mãe que dá à luz a criança da promessa, que trará de volta luz e calor ao seu reino.


Em Portugal

Solstício de Inverno e Ano Novo em Trás-os-Montes

«Nos olhos do mais singelo pastor das montanhas há assombros de majestade, diluídos contornos de horizonte, penhascos recessos onde as águias fazem ninho, vôos embriagados, tonturas de abismo, contidos frémitos de ilimitadas forças. Há uma comunhão pagã que o próprio Cristo praticou.»
Leonardo Coimbra

«Viver a época de Natal em muitas localidades do Nordeste Transmontano é regressar às festas da Antiguidade Pagã. Será, porventura, um dos poucos elos de ligação que resta, ao cabo de dois milénios de Cristianismo, ao ritual cíclico das festividades agrárias do Solstício de Inverno, em honra do Sol ou da Primavera e de louvor à Mãe Natureza.»
António Pinelo Tiza

O «reino maravilhoso» tão amado por Miguel Torga representa uma das reservas de silêncio e arcaísmo mais notáveis da Europa. A dimensão do horizonte e o silêncio das pedras, a amplitude das serranias e os vales profundos, o fogo dos cepos e a água das fontes santas ainda influem no estilo de vida das populações transmontanas. A dureza do clima, as adversidades da interioridade, uma forte tradição guerreira, não diminuem, antes acrescentam um sentido de hospitalidade e de convívio humano que qualquer um pode vivenciar nas aldeias transmontanas. Ouvir o som da gaita de foles a abraçar o silêncio daqueles montes solitários continua a ser uma experiência inolvidável e misteriosa.

Nos tempos pré-romanos a região de Trás-os-Montes, segundo as fon tes clássicas, seria habitada por povos asturianos, vizinhos dos vacceos (que, por sua vez, eram vizinhos dos celtiberos) a oriente e dos po vos galaicos a ocidente; tal como grande parte do território português deveria ser constituído por povos autóctones posteriormente celtizados. Já no tempo da administração romana persistem as suásticas flamejantes nas estelas tumulares (cf. Museu Abade de Baçal) e o próprio nome da cidade de Bragança deriva de Brigantia, teónimo celta. Diodoro refere-se ao espírito comunitário dos vacceos, o que recorda inevitavelmente o espírito transmontano: «Das tribos vizinhas dos celtiberos, o povo vacceo era o mais desenvolvido. Em cada ano dividem a terra a cultivar entre os seus membros e, fazendo dos seus frutos propriedade de todos, reservam a parte devida para cada homem. Os agricultores que se apropriarem indevidamente de algum lote são castigados com a morte.»

Também menciona a hospitalidade cel­tibérica: «Os celtiberos são cruéis nos seus costumes para com os malfeitores e inimigos, mas muito dignos e humanos com os estrangeiros. Àqueles que chegam até eles, convidam-nos para ficarem em suas casas e disputam entre si a hospitalidade. Admiram todo aquele que aju da os estrangeiros considerando-o amado pelos deuses.»

A cultura transmontana é fertil em tradições mítico-religiosas de ori gem arcaica. O culto do pão, da água e, sobretudo, do fogo tem presença assídua. As Fogueiras do Galo (Natal), dos Santos ou do Ano Novo, conforme as povoações, chegam a ter dimensões espectaculares. No ano de 2001, a Fogueira do Galo de Miranda do Douro tinha uns dez metros de diâmetro.

Uma outra tradição sui generis é a dos Ramos. Numa estrutura são colocadas ofertas, como roscas de pão ou chouriças. António Tiza, estudioso das tradições do Nordeste Transmontano, descreve o rito do Ramo de Reis da conhecida aldeia comunitária de Rio de Onor: «O ritual do Ramo é protagonizado pelas moças da terra, muito embora coincida no tempo de realização com a festa dos rapazes. Dias antes as zeladoras da Santa (Nª. Srª. de Fátima) fazem o seu peditório pelas casas da aldeia. A finalidade é reunir géneros necessários para o arranjo do ramo. A base fundamental é a chouriça e algum salpicão; chegam a juntar mais de 15 quilos de chouriças, fora os salpicões, explica um morador. No entanto, outros géneros podem ajudar a compor o ramo, algum tipo de guloseimas, chocolates e bolos confeccionados pelas próprias moças.

O ramo de Reis assim preparado integra a liturgia da missa, é conduzido em cortejo e com o acompanhamento de todos os habitantes para a igreja. No fim da missa é leiloado no adro, à frente do povo e perante a cobiça de alguns forasteiros que aqui se deslocam com a finalidade de adquirirem o fumeiro do ramo. O resultado do leilão reverte a favor da Santa.

Idêntico ao ritual do charolo’ (andor com roscas de pão) celebrado em outras terras do Nordeste, o ramo enquadra-se cabalmente nas festividades agrárias, de celebração da fertilidade e da abundância, e possui um significado perfeitamente condizente com a nossa religiosidade popular: oferecer à divindade o que de melhor se possui, para que a divindade seja generosa, ao ponto de multiplicar as oferendas no novo ano e no ciclo agrário que se ini cia na Natureza.»

Mas o que caracteriza a região de Trás-os-Montes e Alto Douro são os rituais solsticiais e de Ano Novo, que ocorrem nos doze dias que vão do Natal até ao Dia de Reis. Há vestígios de que alguns destes ritos também existiam na Beira Alta.

Numa época como o Natal em que, no geral, as populações estão re colhidas nos seus lares comemorando a festa da família e o nascimento de Jesus, os transmontanos saem à rua, dispõem-se em círculo à volta das fogueiras do galo e começa a povoar a região uma série de «demónios» e de figuras solsticiais. Os jovens organizam-se, mascaram-se e, com a vitalidade que lhes é própria, ritualizam o caos que antecede a nova ordem cósmica, o Ano Novo.

As Festas dos Rapazes realizadas no Nordeste Transmontano, com mas carados, no período do solstício de Inverno, quando as tempera turas atingem vários graus negativos – como aconteceu em 2001 –, são dos ritos de fundo esotérico mais enigmáticos do nosso país.

Em Trás-os-Montes vive-se o espírito das Saturnais – em Roma eram realizadas a partir de 17 de Dezembro –, onde se integram remanescências de ritos guerreiros e solares de fundo muito arcaico.

O dia do Solstício de Verão marca o apogeu do Sol visível. A partir dessa data, os dias começam a diminuir e as noites a ampliar o seu do mínio. Seis meses depois, chega-se ao momento dramático: a noite aumentou de tal forma o seu reino que parece tragar por completo o dia, mas no dia do Solstício de Inverno o Sol Invicto, a Luz de Fogo, que nunca é corrompida, reage e começa a manifestar-se progressivamente. A partir daí, os dias começam de novo a aumentar, a Luz vence as Trevas. Por isso, corresponde à data de nascimento dos grandes deuses solares – Agni, Hórus, Mithra, Cristo, etc. Mas esta vitória não é visível, passa-se num mundo oculto, razão pela qual sempre foi um período destinado a rituais de cunho esotérico que estabelecem a ligação entre o mundo invisível, onde vivem os antepassados e os deuses, e o mundo dos humanos.

(Por Paulo Loução)

 

 

 

Solstício de Inverno atrai forasteiros

Nesta altura do ano, as figuras dos rituais do Solstício de Inverno assumem um profundo significado em toda a Terra de Miranda, que abrange os concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso. No entanto, há outros concelhos como Vinhais, Bragança e Macedo de Cavaleiros, igualmente procurados pelos apreciadores do turismo cultural e mitológico.
Recorde-se que, por serem de origem pagã, o clero tentou proibir algumas das tradições ao longo dos séculos, mas continuaram a resistir dada a vontade popular em preservá-las. Assim, na década de 70 do século passado, estas festividades renasceram e algumas delas ganharam, mesmo, maior dimensão.
O Período dos 12 dias (como é designado pelos investigadores), desde o dia de Natal aos Reis, é a época alta para as festividades do Solstício de Inverno e quando Chocalheiros, Carochos, Sécias, Velhos, Farandulos, mascarados e vestidos com trajos espampanantes e por vezes de aspecto “demoníaco” saem à rua com alaridos e trejeitos próprios, trazendo às aldeias da região transmontana momentos únicos de alegria e diversão.
A viagem ao universo destas figuras pode tornar-se inesquecível, sendo que para uns são assustadoras e para outros, apenas, rituais de iniciação e fertilidade. Cheias de simbolismo e interesse cultural, é comum ver por estas paragens, historiadores, antropólogos e turistas, que são cada vez mais arrastados pela curiosidade proporcionada por estes mascarados.

Planalto Mirandês é rico em tradições pagãs

Faça frio ou sol, novos e velhos ainda dão continuidade à tradição, como em Vale de Porco, no concelho de Mogadouro, onde o Chocalheiro ou Velho é representado por um moço que, vestido com um fato de serapilheira e uma máscara tauromórfica esculpida em madeira e com chocalhos à cintura, percorre as ruas da aldeia no dia de Consoada, numa autêntica algazarra no intuito de recolher esmola em beneficio da igreja, cujo culto pertence ao Menino Deus e Senhora da Conceição.
“Como cada terra tem seu uso”, o percurso continua por outros locais, sendo que o difícil é assistir a duas celebrações no mesmo dia.
Assim, outra das sugestões passa pelo Chocalheiro de Bemposta que, com o simbolismo da sua máscara, torna-se numa das mais emblemáticas figuras do Planalto Mirandês a sair à rua a 1 de Janeiro. Há muito tempo que este ritual é feito por promessa, uma vez que, pessoas no meio das aflições do dia, fazem uma promessa ao Menino Deus.
Sendo praticamente impossível descrever a pureza desta figuras, tomamos rumo à aldeia de Bruçó, no concelho de Mogadouro, onde, na manhã do dia de Natal, dois casais saíram à rua. Por um lado, o Soldado e a Sécia e, no outro, um par de Velhos, todos mascarados e vestidos a preceito. Já na rua, as personagens ganham vida própria e os mascarados iniciam funções: Sécia, protegida pelo Soldado, é uma mulher mundana, “de vida fácil”, que, ao longo do trajecto, é assediada pelos rapazes com mais coragem, enquanto o valente Soldado atira umas valentes “ cinturadas” a quem dela se aproximar.
Para terminar este roteiro mitológico, fica a sugestão das Festas das Morcelas ou da Mocidade, dedicadas a São João Evangelistaque têm lugar a 27 de Dezembro na aldeia de Constantim, no concelho de Miranda, e que constitui um dos exemplos mais emblemáticos destes rituais que se prolongam até ao Dia de Reis e onde os actores principais são o Carocho e a Velha.

(Por Francisco Pinto)

 


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