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Procurou nos sacos uma coberta. Sabia que trouxera duas, bem como uma imensa pele que lhe custara os olhos da cara mas, por mais que procurasse, não as conseguia encontrar.

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Contos populares de Vinhais


Contos populares de Vinhais

Máscaros de Vila Boa, Vinhais

A propósito do post respeitante à Festa da Cabra e do Canhoto, alguns leitores mostraram a sua curiosidade sobre as histórias que se contam naquela noite.

Embora não pertençam à aldeia de Cidões, deixo-vos aqui algumas dessas histórias que a tradição oral tem passado de geração em geração na região de Vinhais e que, deixem-me adivinhar, serão contadas em tantos outros pontos do País, mais lobisomem menos moura encantada…

As pintas de sangue na levedura do pão

Nos domingos e dias feriados o povo rural ainda hoje cumpre a tradição de não ir para o campo trabalhar. E é de tal forma o respeito por esses dias, que há certos feriados em que nem no campo nem em casa o povo trabalha. Assim acontece na Sexta-Feira Santa.
Contam os antigos que em Rebordelo, Vinhais, uma mulher resolveu não guardar o feriado de Sexta-Feira Santa e, desdenhando dos seus vizinhos, disse:
— Ides ver se eu vou ou não cozer hoje o meu pão!
Pôs-se então a amassar a farinha, e, quando já ela estava a levedar, apareceu-lhe na masseira o formato de uma hóstia salpicada com pintas de sangue. A mulher ficou admirada, mas não se importou muito com isso. Vai daí, despejou a farinha e pôs-se a amassar outra, para tentar fazer o trabalho que tinha começado. Contudo, na masseira voltou a aparecer uma hóstia com pintas de sangue.
Muito aflita, correu a casa do padre para se confessar e pedir a sua ajuda. O padre disse-lhe:
— Se estás arrependida do que fizeste, vai para casa, coze todo o pão que amassaste e vai depois distribuí-lo pelos pobres da aldeia.
Ela assim fez. E nunca mais voltou a encontrar daqueles sinais na levedura do pão.

in “Antologia de Contos Populares”,de Alexandre Parafita

 

O Criado Lobisomem

Conta-se em algumas aldeias transmontanas que, certo dia, um homem recolheu em casa um criado para trabalhar na sua fazenda. Porém, passado algum tempo, o dono da casa começou a aperceber-se que, durante a noite, havia ruídos estranhos vindos do sítio onde o criado dormia.

Uma noite, o homem resolveu tirar tudo a limpo e pôs-se a vigiar o criado, acabando por descobrir que era costume, à meia noite, ele sair de casa para ir correr fado.
— Tenho um lobisomem em casa! — disse para consigo. — Está ele desgraçado e estou eu!
No entanto, como se tinha já afeiçoado bastante ao criado, resolveu não lhe dizer nada. E nem quis pensar, sequer, em pô-lo fora de casa, pois, para isso, teria de dizer-lhe o motivo. Tratou foi de procurar uma forma de o ajudar.
Assim, certa noite, uma noite gelada de Inverno, esperou que ele saísse de casa e foi no seu encalço até à encruzilhada onde ia espojar-se. Quando o criado se despiu, o patrão assenhorou-se da roupa sem que ele se apercebesse e foi queimá-la à beira do rio. Depois regressou a casa e trancou-lhe a porta.
Ao levantar-se na manhã seguinte, o dono da casa abriu a porta e encontrou o criado morto na soleira. Estava nu e enregelado. Sem a roupa que o patrão queimara, o infeliz havia sucumbido ao frio da noite.

in “Antologia de Contos Populares”,de Alexandre  Parafita

 

O Gato Preto e as Vacas

Havia um lavrador que costumava ir todas as noites ao curral dar de comer às vacas. Uma noite ao entrar no curral encontrou um gato preto empoleirado no lombo de uma das vacas e tentou enxotá-lo. Mas ele não se mexia.
O homem chegou-se ao pé dele, e ao notar que era um gato preto, resolveu ter uns certos cuidados com ele. Por isso, passou-lhe a mão no pêlo com meiguice, ao mesmo tempo que lhe dizia:
— Olha que me dás cabo da vaca. Saí daí!
E o gato respondeu:
— Não.
O lavrador ficou de boca aberta com o que estava a presenciar, e não quis mais conversas com o gato. Tratou mas é de sair porta fora, e foi dali direito à taberna da aldeia para contar aos amigos o que lhe tinha acontecido. Estes riram-se dele, mas o lavrador insistiu que havia um bruxedo qualquer na loja das vacas. E pelo sim, pelo não, resolveram ir lá todos ver o que era, cada um armado com o seu varapau.
E, mal o lavrador abriu a porta da loja, eis que sai de lá um estranho vulto com a rapidez de um raio, de modo que nenhum dos homens chegou a ver se era o tal gato preto ou um diabo qualquer. Fosse o que fosse, ninguém mais voltou a rir de “certas coisas” que às vezes acontecem…

in “Antologia de Contos Populares”,de Alexandre  Parafita

 


 

S. Martinho/S. Martin


 

S. Martinho

Nesta época, os pagãos celebravam a despedida do Verão e do Outono (o fim das colheitas e o início da época em que estas eram consumidas) e era tradição abaterem-se alguns animais, uma vez que as pastagens eram já raras.

O S. Martinho que celebramos hoje era romano, nascido no seio de uma família pagã mas que se apaixonou pelo cristianismo ao ponto de abandonar o exército aos 18 anos.

Anos mais tarde, ascenderia a bispo de Tours. Ao longo da sua vida advogou a caridade (o que lhe valeria a canonização), ao mesmo tempo que foi responsável pela destruição de diversos templos e de espécies arbóreas que assumem particular importância para os pagãos.

Reza a lenda que Martinho, ainda no exército romano, cortou o seu manto em dois para dar uma das metades a um pobre enregelado. Pouco depois, o dia, até então frio, foi aquecido por um Sol luminoso.

Em Portugal, a celebração do S. Martinho tem também as suas raízes nos ritos agrícolas pagãos, sendo de destacar a sua profunda ligação ao vinho: em algumas das festas em sua homenagem, este santo era representado como a figura de um “beberrão”.

Falando mais a sério, Teófilo Braga lembrava (no Vol.I de “O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições”), que as celebrações respeitantes ao deus Odin, também denominado Wuotan, coincidiam, no Sul da Europa, com o final do Verão e do Outono, por altura do S. Martinho. Wuotan partilhava também outras circunstâncias com S. Martinho: o manto, a espada e o cavalo branco.

St. Martin

Around this time of the year, pagans celebrated the farewell of Summer and Autumn (end of the harvest season and the beginning of the season in which products were largely consumed) and several animal were slaughtered, because the pastures were already rare.
The S. Martin we celebrate today was a Roman, born in the midst of a pagan family but who fell in love for Christianity leading him to leave the army at the age of 18.
Years later, he was nominated bishop of Tours. Throughout his life he advocated charity (a fact that would earn him the canonization), while it was responsible for the destruction of several temples and tree species that have particular relevance to pagans.
Legend has it that Martin, still in the Roman army, cut his cloak in two to give one half of it to a chilled poor man. Shortly afterwards, the until then cold day was heated by a bright sunshine.
In Portugal, the celebration of St. Martin also has its roots in pagan agricultural rites, highlighting its deep connection to wine: in some of the festivals in honor of this saint he was depicted as the figure of a “drunkard.”
More seriously, Teófilo Braga remembered (in Vol.I of “O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições”) that the celebrations relating to the god Odin, also called Wuotan, matched, in southern Europe, the end of Summer and Autumn, around the time of S. Martin. Wuotan also shared other facts with S. Martin: the robe, the sword and the white horse.