As minhas “estórias” do meu bairro VI


As minhas “estórias” do meu bairro VI

A ideia de criar um conjunto de pequenas crónicas sobre a Penha de França surgiu depois de ter escrito o livro sobre esta que é a minha freguesia, um documento meramente objetivo e informativo. No entanto, a verdadeira inspiração partiu de um projeto da Biblioteca da Penha de França denominado “Vidas e memórias de bairro”.

Esta iniciativa, que surgiu em 2015, é dirigida aos idosos da freguesia e pretende “recuperar e divulgar histórias de vida, vivências, testemunhos, relatos e memórias importantes e relevantes que estes desejem partilhar e preservar”.

“Vidas e memórias de bairro” tem lugar todas as sextas-ferias à tarde, entre outubro e maio e parte de “sessões denominadas “oficinas comunitárias da memórias” durante as quais é trabalhado um determinado tema relacionado com o património material e/ou imaterial da freguesia”.

In

http://blx.cm-lisboa.pt/vidasmemoriasbairro

 

As minhas “estórias” do meu bairro VI – O autocarro de dois andares

Desta vez, a minha “estória” está relacionada com o aniversário da Carris. Sim, porque quando se é pequeno, tudo é uma aventura e nda prova melhor que as coisas simples da vida são sempre as mais importantes e as que perduram no nosso cérebro.

Pois é. Hoje em dia os autocarros são híbridos, amarelos e têm apenas um andar. Alguns têm até internet.

Mas há mais de 30 anos, Lisboa parecia ser um versão pequena e latina de Londres.

Os autocarros tinham dois andares, uma porta articulada rudimentar  à frente e outra atrás, bancos rijos de uma pele com pequenos relevos e armações de metal.

Ao segundo andar chegava-se através de umas escadas quase em caracol. E o segundo andar era um sítio mítico para a criançada, o topo do farol de onde se avistava a cidade de uma forma diferente. Éramos uns gigantes que observavam os outros tão pequenos que pareciam formigas.

Rua Martins Sarmento, 1964 Armando Maia  Serôdio  PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SER/S02851 AML

Rua Martins Sarmento, 1964 Armando Maia Serôdio PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SER/S02851 AML

Na minha rua passava um desses autocarros de dois andares. A carreira não me lembro, talvez fosse a que hoje corresponde ao 730, mas isso também não era importante. Importante mesmo era que cada vez que o veículo se fazia anunciar – e era muito fácil perceber pelo ruído do motor, que se ouvia à distância -, eu corria para a janela para ver o seu topo branco com rebites mal pintados e imaginar quem vinha lá dentro.

Homens, mulheres, crianças, de onde vinham, para onde iam, a caminho de que aventuras estariam ou que desafios teriam deixado para trás antes de embarcarem no autocarro.

E o autocarro lá passava. Ficava a vê-lo até passar pelo largo da cabine, como o conhecíamos então, graças a uma cabine telefónica que, apesar de incontáveis atos de vandalismo, por ali ficou durante muitos anos. Depois de passar pelo largo, o autocarro seguia o seu percurso e eu voltava para dentro, ansiosa pela próxima passagem.

Penha de França - Do Rio à Colina Sandra Terenas Edições Fénix

Penha de França – Do Rio à Colina Sandra Terenas Edições Fénix Com o apoio da Junta de Freguesia da Penha de França

“Penha de França Do Rio à Colina”, Sandra Terenas 

Edições Fénix

Com o apoio da Junta de Freguesia da Penha de França

Penha de França do Rio à Colina”, procura levar ao conhecimento dos cidadão o património cultural e a identidade própria da Freguesia da Penha de França. É este território, que inclui o Tejo e o ponto mais alto de Lisboa, o Miradouro da Penha de França, que constitui a fronteira entre o centro histórico e a zona oriental da capital.

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Os 145 anos da Carris


A Carris está a celebrar 145 anos

carris

1872 – A Fundação

A 18 de setembro, é fundada, no Rio de Janeiro, a Companhia Carris de Ferro de Lisboa, a qual pretendia implantar na capital portuguesa um sistema de transporte do tipo americano (carruagens movidas por tração animal e deslocando-se sobre carris). Foi autorizada em Portugal, por Decreto de 14 de novembro do mesmo ano.

1873 – A Primeira Linha

A 23 de janeiro, o escritor Luciano Cordeiro de Sousa e seu irmão Francisco, diplomata, obtêm os direitos para a implantação de um sistema de transporte na cidade de Lisboa, denominado Viação Carril Vicinal e Urbana a Força Animal.

A 14 de fevereiro, a Câmara Municipal de Lisboa aprova o trespasse para a Empresa Companhia Carris de Ferro de Lisboa. 

A 17 de novembro, é inaugurada a primeira linha de “Americanos”. O troço aberto ao público estendia-se entre a Estação da Linha Férrea do Norte e Leste (Stª. Apolónia) e o extremo Oeste do Aterro da Boa Vista (Santos).

1874 – Estação de Santo Amaro

Em terrenos da velha “Quinta do Saldanha”, ao Calvário, nasce a Estação de Santo Amaro onde é iniciada a construção de cavalariças, cocheiras, oficinas e celeiros. No final deste primeiro ano de exploração, a Companhia dispunha de 29 500 metros de linha assente, 54 carros em circulação e 421 cabeças de gado.

1876 – Reconhecimento

Em 31 de maio, a CARRIS torna-se exclusivamente portuguesa e é legalmente reconhecida como Sociedade Anónima.

1882 – Estação Arco do Cego

A 17 de abril, é adquirida a “Quinta do Poço Caído”. Aí se constrói uma nova estação, que passou a designar-se do Arco do Cego, calcula-se que por extensão do nome daquela artéria.

1897 – Inicio da tração elétrica

A 5 de junho é assinado um contrato entre a Câmara Municipal de Lisboa e a CARRIS com vista à substituição do sistema de tração então utilizado. Nele se estipula que “…é concedida à Companhia Carris de Ferro de Lisboa autorização para substituir o seu atual sistema de tração, por tração elétrica por condutores aéreos nas linhas que explora e nas que está obrigada a construir…”.

1899

A 7 de julho, visando a transformação do sistema, a CARRIS contrata com a firma Wernher, Beit & Co., a cedência, por arrendamento, de todos os seus edifícios, linhas e demais material, obrigando-se esta a cumprir os contratos assinados com a Câmara e a pagar todo o passivo, juros e amortizações da Companhia, bem como um juro de 6% às suas ações.

Em 27 de julho, a Wernher, Beit & Co. cede à Lisbon Electric Tramways Limited (L.E.T.L.) todos os direitos e obrigações assumidos por aquele contrato. O relatório desse ano indica que foi acordado entre as duas Companhias que os corpos gerentes da Carris continuariam a ocupar-se da exploração das linhas por conta da L.E.T.L., respondendo esta pelos encargos provenientes da modificação ajustada.

1900 – Geradora

Têm início os trabalhos de modificação e assentamento de linhas, de instalação da rede aérea e de construção da Central Elétrica destinada a fornecer energia para o novo sistema.

1901 – Rapidez

Em 31 de agosto é inaugurado o serviço de elétricos.

1902 – Elevador de Santa Justa

O Elevador do Carmo ou de Santa Justa, atualmente propriedade da Companhia Carris, foi inaugurado a 10 de Julho, movendo-se a vapor até Novembro de 1907, quando foi equipado com motores elétricos. É o único elevador vertical de Lisboa, tendo sido concebido por Raoul Mesnier du Ponsard.

1912

Com o fim de estudar as necessidades de transporte de alguns bairros ainda não abrangidos pelo serviço de carros elétricos, a Companhia Carris, com uma pequena frota de 5 unidades, organiza carreiras de autocarros, a primeira das quais, ligando Sete Rios a Carnide, foi inaugurada no dia 14 de Novembro. Dificuldades de manutenção e fraca afluência por parte do público conduziram ao seu desaparecimento três anos mais tarde.

1926 – Ascensores de Lisboa

A CARRIS adquiriu da Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa (N.C.A.M.L.) todos os seus bens, valores, direitos e obrigações, ficando, assim, integrados na sua rede os ascensores do Lavra, da Glória e da Bica, inaugurados, respetivamente, em 1884, 1885 e 1892.

1937 – Estação das Amoreiras

Num terreno que adquiriu três anos antes, é iniciada a construção da Estação das Amoreiras, destinada ao serviço de carros elétricos. Dez anos passados, as instalações são ampliadas com a edificação da estação de serviço para autocarros.

1944 – Inauguração do serviço de autocarros

Em 9 de abril, utilizando as viaturas adquiridas em 1940 para reforço do transporte de visitantes para a Exposição do Mundo Português, que se realizou em Belém, é inaugurado oficialmente o serviço de autocarros.

1947 – Autocarros de dois pisos

São recebidos os primeiros autocarros de dois pisos. Portadores dos números de frota 201 e 202, entraram ao serviço no dia 22 de Junho, na carreira Praça do Chile – Encarnação.

1958 – Estação de Cabo Ruivo

O número sempre crescente de autocarros postos ao serviço do público cedo fez sentir a necessidade de uma nova Estação. No dia 11 de dezembro, é inaugurada a Estação de Serviço e Recolha de Autocarros de Cabo Ruivo.

1973 – Renovação

Em 21 de dezembro, pelo Decreto-Lei nº.688/73, é rescindido o contrato de arrendamento à L.E.T.L. Simultaneamente, efetua-se com a Câmara Municipal de Lisboa um contrato de renovação da concessão pelo prazo de 50 anos. Em consequência, a Companhia Carris vê o seu património substancialmente aumentado por diversos imóveis etodo o estabelecimento industrial fica com o direito de explorar por mais 50 anos uma nova concessão de transportes coletivos urbanos, utilizando autocarros, elétricos e ascensores.

1974 – Reforço da frota

Verificada a urgente necessidade de renovação da frota de autocarros, é aberto concurso público para o fornecimento de 200 viaturas carroçadas em Portugal. Em finais de 1975, a CARRIS já tinha em circulação 75 novos autocarros.

1976 – Estação da Pontinha

Tendo em vista a próxima desativação da Estação das Amoreiras e a ampliação da frota de autocarros, é inaugurada no dia 1 de Outubro a Estação da Pontinha, destinada à recolha de autocarros, Estação de Serviço e pequenas reparações.

1979 – Estação de Miraflores

Com os trabalhos de terraplanagem, têm início as obras destinadas à construção do complexo de Miraflores, o qual integra três sectores de atividades: Oficinas Gerais, Estação de Serviço e Núcleo Administrativo, que entram em funcionamento à medida que vão sendo concluídos.

1981 – Estação da Musgueira

Em 27 de Fevereiro, é inaugurada a Estação da Musgueira, no âmbito do plano de ampliação e renovação da frota de autocarros. Esta Estação ficou a apoiar uma frota de 200 autocarros utilizados na exploração de 18 carreiras regulares e garantindo o transporte de cerca de 100 milhões de passageiros por ano.

1983 – Visita do Gen. Ramalho Eanes

A 19 de julho, o Complexo de Miraflores recebe Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, General Ramalho Eanes, naquela que foi a primeira visita realizada pelo mais alto magistrado da Nação a instalações da Empresa.

1990 – Renovação

Em finais deste ano, a CARRIS passa a dispor de 40 novos autocarros de tamanho mais reduzido que o habitual destinados a carreiras de percursos sinuosos e, por essa razão, vulgarmente chamados de “médios”.

1991

Em julho deste ano, no âmbito de um plano de modernização da frota da Empresa, entraram ao serviço os primeiros autocarros articulados.

1993

Prosseguindo uma política de renovação e diversificação da frota de autocarros, é introduzido um novo segmento: os mini autocarros.

1995

No primeiro trimestre, entram em exploração 10 elétricos articulados, os primeiros com esta característica a integrarem a frota da Empresa.

1996

A CARRIS conclui a remodelação de 45 elétricos tradicionais. Mantendoo seu aspeto exterior os elétricos tornam-se mais rápidos, silenciosos e seguros.

1997

Procede-se à renovação da imagem da empresa, traduzida em diversas formas de comunicação, designadamente na imagem exterior dos veículos, adotando o “amarelo” como cor dominante, em todas as viaturas de serviço público.

1999

Em 12 de janeiro é inaugurado o Museu da CARRIS, lugar de memórias e de afetos e repositório da história longa e rica da Empresa, com a presença de Sua Excelência o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio.

2001

Refletindo a preocupação da Empresa com a melhoria da qualidade ambiental e a utilização eficiente dos recursos energéticos, entram ao serviço os primeiros autocarros movidos a gás natural.

Tendo como principais finalidades garantir melhores condições de segurança física e psicológica aos passageiros e tripulantes e aumentar a eficácia da atuação das entidades policiais, tem início a instalação de sistemas de videovigilância nos veículos de serviço público.

2002

Pelo Decreto nº. 5/2002, de 19 de fevereiro, os ascensores do Lavra, da Glória, da Bica e o Elevador de Santa Justa são classificados como Monumentos Nacionais.

2004 e 2005 – Renovação da frota

Entrada em funcionamento do novo sistema de bilhética sem contacto, com a adoção do “Lisboa Viva” para os passes e do “7 Colinas” para os bilhetes.

Início de um ambicioso processo de renovação da frota com a aquisição de 408 novos autocarros em 3 anos, resultando numa frota com idade média de 5,7 anos, no final do período.

Expansão da rede de corredores reservados “BUS”, com o acréscimo de 11 novos corredores e reforço da fiscalização com a criação de um sistema de “vigilantes”.

Tem lugar a transferência, de Santo Amaro para o Complexo de Miraflores, da Sede Executiva da CARRIS e de todos os seus Serviços Centrais.

Foi requerida a Certificação da Empresa, de acordo com a norma ISO 9000, bem como a certificação de carreiras, processo este em que a CARRIS foi pioneira.

2006 – A Certificação

Em janeiro, é oficialmente certificado o Sistema de Gestão da Qualidade da CARRIS, de acordo com a norma NP EN ISO 9001:2000, aprovado pela APCER – Associação Portuguesa da Certificação.

Foi também iniciado o processo de Certificação do Sistema de Transporte, tendo a CARRIS obtido, em Fevereiro, a certificação das primeiras quatro carreiras (15E, 56, 60, 83). Este reconhecimento foi concedido pela CERTIF – Associação para a Certificação de Produtos – com base na norma NP EN 13816:2003 e nas especificações Técnicas da CERTIF.

A 9 de setembro, é lançada a 1ª fase da “REDE 7”, refletindo uma renovação global da rede, caracterizada por menor sobreposição e maior articulação com as linhas do Metropolitano, bem como maiores níveis de frequência.

A 20 de outubro é assinada, em Bilbau, a Carta de Compromisso da UITP – União Internacional de Transportes Públicos – com o Desenvolvimento Sustentável, como “Pledge Charter Signatory”.

2007 – A Carta Europeia

Em fevereiro, a CARRIS subscreveu a Carta Europeia de Segurança Rodoviária.

Continuação do processo de certificação de serviços com a certificação, em Maio, de mais 18 carreiras.

A 18 de setembro, em Lisboa, foi assinada, com a UITP, a Carta de Compromisso com o Desenvolvimento Sustentável, com o estatuto de “Full Charter Signatory”

No final do ano, é finalizado o processo de externalização da manutenção de autocarros, consolidado através da CARRISBUS.

2008 – Ranking Responsabilidade Climática

É lançada a 2.ª fase da “Rede 7”.

Em abril, é obtida a certificação do Sistema de Gestão Ambiental através da norma NP EN ISO 14001:2004.

No estudo “Estado do País em Práticas Sustentáveis”, organizado pela Heidrick & Struggles e o jornal Expresso, em parceria com o BES, a CARRIS obteve 89,3% no Barómetro da Sustentabilidade, muito acima da média nacional.

Em junho, na Feira Europeia de Mobilidade, realizada em Paris, um motorista da CARRIS obteve o 2.º lugar no concurso “Bus d’Or” de Melhor Motorista da Europa.

Consolidação do processo de renovação da frota com a entrada ao serviço de mais 40 autocarros, 20 médios (Euro 4) e 20 articulados (Euro 5).

Início do processo de reposicionamento da marca CARRIS, através de uma abordagem inovadora em transporte público, fazendo uso do marketing multi-sensorial.

2009 – Processo de renovação e certificação da frota

A 12 de janeiro a CARRIS comemorou o 10.º aniversário do Museu da Empresa.

Aquisição de mais 60 autocarros, tipologia “Standard”, dos quais 20 a gás natural comprimido.

A certificação do Serviço de Transporte atinge um total de 52 carreiras (mais de 50 % da totalidade da rede).

A 15 de abril, Sua Excelência o Presidente da República, Professor Aníbal Cavaco Silva, visita a CARRIS, no âmbito da 5.ª jornada do Roteiro para a Ciência

2010 – Andamos a pensar em si

A 22 de setembro, foi lançado o CARRIS Net Bus, um projeto piloto através do qual é disponibilizado o livre acesso à internet a bordo dos veículos, a partir de computadores ou telemóveis, nos 30 autocarros articulados que circulam nas carreiras 36 e 745.

Foi lançada a 3.ª fase da “REDE 7”.

A 18 de maio, o Museu da CARRIS passou a integrar a Rede Portuguesa de Museus.

Certificação de mais 12 Carreiras, em agosto, passando a haver 64 carreiras certificadas.

Em setembro, a CARRIS obteve a certificação do Sistema de Gestão da Segurança e Saúde no Trabalho.

2011 – Híbrido

A CARRIS e a AUTO SUECO testaram, pela primeira vez, um autocarro híbrido em Lisboa, comprovando uma redução significativa de combustível.

2012 – Uma viagem que nos une

A CARRIS Certificada em Responsabilidade Social pela Norma NP 4469, sendo a primeira Empresa em Portugal a fazê-lo em alinhamento com as orientações da Norma ISO 26000, mais uma vez, um processo pioneiro no setor.

Início do processo de integração entre a CARRIS e o METROPOLITANO DE LISBOA com a nomeação de uma administração comum que tem como principal prioridade dar concretização aos objetivos definidos no Plano Estratégico de Transportes para o transporte urbano na Área Metropolitana de Lisboa, com vista à concessão dos serviços de transporte prestados por estas empresas.

In Carris

http://www.carris.pt/

http://museu.carris.pt/

As minhas “estórias” do meu bairro V


As minhas “estórias” do meu bairro V

A ideia de criar um conjunto de pequenas crónicas sobre a Penha de França surgiu depois de ter escrito o livro sobre esta que é a minha freguesia, um documento meramente objetivo e informativo. No entanto, a verdadeira inspiração partiu de um projeto da Biblioteca da Penha de França denominado “Vidas e memórias de bairro”.

Esta iniciativa, que surgiu em 2015, é dirigida aos idosos da freguesia e pretende “recuperar e divulgar histórias de vida, vivências, testemunhos, relatos e memórias importantes e relevantes que estes desejem partilhar e preservar”.

“Vidas e memórias de bairro” tem lugar todas as sextas-ferias à tarde, entre outubro e maio e parte de “sessões denominadas “oficinas comunitárias da memórias” durante as quais é trabalhado um determinado tema relacionado com o património material e/ou imaterial da freguesia”.

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A minha escola primária – Os colegas

A escola primária é sempre um momento marcante na vida de cada um de nós.

Já vos falei de algumas das recordações que tenho da minha, a atual Victor Palla, mas muitas mais ficaram por contar. Na verdade, para relatar todas seria preciso um livro.

As pessoas são, provavelmente, a memória mais calcada desse tempo, em particular, os colegas pela sua diversidade social e cultural.

Como o A., o rapaz repetente que vivia numas barracas – eu sei que a expressão “técnica” é habitações degradadas, mas não gosto muito de fugir à dureza da realidade e ainda menos de ser politicamente correta – e de quem me lembro sempre a preto e branco. Cabelo que parecia palha áspera em desalinho, uma camisola de lã – poliéster, leia-se – de gola alta, daquelas que picam por todo o lado, e umas calças demasiadamente curtas e excessivamente largas que lhe dançavam animadamente no fundo das pernas a cada passo. Sempre a preto e branco.

Ou como a C., a menina lourinha e magrinha de franja, a quem o sinalzito empoleirado na testa, ali mesmo junto à cana do nariz, dava uma graça muito particular. Vivia num prédio enorme – considerando que às crianças tudo parece maior do que aquilo que é – com muitos andares e elevador, pelo que era sempre uma aventura visitá-la. Mas a aventura não se ficava por aqui. Tal como tantos outros edifícios naquela época, a casa da C., numa avenida muito próxima da escola, tinha um outro detalhe que me fascinava: uma varanda fechada com vidro. E como o vidro era fosco, toda a gente se divertia a espreitar lá para fora e a tentar adivinhar o que se passava lá baixo, muito lá em baixo, na rua.

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Ou a I., que morava numa praceta alguns metros acima da C., de cabelo encaracolado e algumas sardas sumidas, a quem brilhavam os olhos azuis – ou verdes, quem sabe – quando lhe perguntavam qual era o seu país preferido. A resposta era sempre a mesma: Massachusetts. Naturalmente, ela não fazia ideia que aquele nome complicado mas promissor de muitas coisas diferentes não era um país. Não sabia ela nem nós.

Como o J.P., pequenito de cabelos ao vento e  galochas vermelhas, mais pequenito que a maioria dos outros rapazes, mas dono da mesma malandrice inocente dos seus pares. Chegar a casa do J.P. era outra aventura, esta de maior dureza física. Não vivia num andar tão alto como a C., mas a sua casa ficava no topo da colina, a segunda mais alta da capital. Para lá chegar era preciso subir até à igreja, ultrapassar uma velha casa de candeeiros onde os meus pais compraram um candeeiro de louça com várias cores que, infelizmente, durou muitos anos – ao contrário da loja onde fora adquirido – e descer uma estreita rua que se desdobrava ao longo de uma esquina apertada. E depois de algumas brincadeiras, era necessário ganhar coragem para fazer o caminho inverso.

Ou a C.J., que não faço a mínima ideia de onde morava, mas que me fazia fazia companhia nas poses mais pirosas que as meninas daquelas idades conseguem fazer. E o pior de tudo – ou melhor, depende da perspetiva – é que está tudo registado em fotografia. Eu, de cabelo à rapaz e uma saia de peitilho às riscas, ela, de cabelo ondulado e franja presa por ganchos e, como sempre, de bata impecavelmente branca, e a I.C., de longas tranças pretas e sardas, lembrando uma personagem da série “Uma Casa na Pradaria”, deitadas no relvado fronteiro da escola, fazendo de conta que éramos umas top models. Claro, na altura ninguém sabia o que isso era, mas nós as três já tínhamos uma Sara Sampaio dentro de nós.

Os colegas da primária voltarão em breve…

Penha de França - Do Rio à Colina Sandra Terenas Edições Fénix

Penha de França – Do Rio à Colina Sandra Terenas Edições Fénix Com o apoio da Junta de Freguesia da Penha de França

“Penha de França Do Rio à Colina”, Sandra Terenas 

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Penha de França do Rio à Colina”, procura levar ao conhecimento dos cidadão o património cultural e a identidade própria da Freguesia da Penha de França. É este território, que inclui o Tejo e o ponto mais alto de Lisboa, o Miradouro da Penha de França, que constitui a fronteira entre o centro histórico e a zona oriental da capital.

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